domingo, 13 de março de 2011

sábado, 12 de março de 2011

O Jornalismo em descompasso com a saúde pública


Com o objetivo de levantar subsídios para discussão a respeito dos meios de comunicação e sua relação com uso de drogas, foram iniciados, no Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (CEBRID), estudos sobre as informações divulgadas em jornais e revistas de todo o País.
Nos anos de 1998, 2000 e 2003, foi observado um grande número de matérias gerais, sem focar alguma droga em especial, com utilização de termos amplos como “dependência”, “vício”, “tóxicos” e “tráfico”. No entanto, entre as matérias que abordaram drogas específicas, foi observado um evidente predomínio do tabaco, na maioria das vezes, ressaltando os danos decorrentes do uso ou as estratégias para parar de fumar. O número de matérias sobre bebidas alcoólicas, apesar de ter crescido ao longo dos anos, permaneceu aquém do esperado.
Embora não seja possível determinar a freqüência ideal de artigos, ao menos seria esperada uma distribuição mais equilibrada, compatível com os indicadores de saúde pública. As bebidas alcoólicas deveriam ser as mais discutidas, uma vez que representam o maior foco de problemas de saúde, seguidas pelo tabaco. Os solventes e os medicamentos psicotrópicos, amplamente usados de forma abusiva pelos jovens, também merecem maior discussão na imprensa.
No entanto, vale ressaltar que, apesar de ainda estar descompassado com a saúde pública, o jornalismo avançou muito nas últimas décadas.Um estudo realizado por Carlini-Cotrim e colaboradores (1994), sobre
as matérias jornalísticas das décadas de 1970 e 1980, observou um número muito pequeno de matérias sobre tabaco e álcool e, por outro lado, enfoques muito alarmistas para as drogas ilícitas. O fato de, nos anos de 2000 e 2003, ter sido detectado um cenário jornalístico menos tendencioso, sugere um amadurecimento e alinhamento gradativos entre imprensa e saúde pública.
Por outro lado, a utilização de termos pejorativos e a ênfase “emocional” estampada nos artigos jornalísticos é fator que ainda merece atenção, principalmente, por ter sido observada com maior frequência nos textos de “especialistas” (advogados, médicos, dentre outros). Expressões como “Trata-se de um abismo...” e “o flagelo das drogas” são alguns exemplos do quanto o discurso sobre drogas recebe o tom emocional nos mais diferentes setores da nossa sociedade (Noto et al.2003).

Os debates específicos sobre álcool, maconha e cocaína

As matérias sobre bebidas alcoólicas foram abordadas na mídia, em diferentes perspectivas, com crescente enfoque em políticas públicas. Alguns temas específicos receberam maior destaque como, por exemplo, as questões relativas ao trânsito. Essa abordagem vem acompanhada de uma mobilização social, com a mensagem: se beber não dirija, se dirigir não beba, legitimada pela maior restrição para o álcool no trânsito.
As matérias sobre maconha enfocaram a ilegalidade dessa droga. No ano de 2000, cerca de 2/3 das matérias envolveram questões relacionadas à apreensão de droga e repressão ao tráfico. Possivelmente, como sinal de mudança de visão mundial em relação ao assunto, foram observadas várias matérias sobre uso terapêutico (“Remédio de maconha”) e descriminalização da maconha (“Descriminalização da maconha em debate”). As consequências negativas específicas do uso da maconha foram abordadas em menor proporção do que o observado para tabaco, cocaína e álcool.
A cocaína e o crack são as drogas que mais recebem enfoque de repressão ao tráfico, apreensões, repressão ao cultivo, repressão ao uso e consequências do tráfico. As consequências negativas do uso também foram alvo de várias manchetes. Entre as principais consequências, destacam-se a dependência e os problemas cardiovasculares, com manchetes como “Drogados têm mais chances de infartar”.

O discurso sobre as formas de lidar com a questão

Nos jornais, foi observado também um número considerável de artigos destacando questões relativas ao tráfico e à repressão. Esse tema chegou a superar os demais aspectos relativos ao uso de drogas, como
saúde, educação, políticas públicas e legislação.
Os focos desses artigos ficaram em torno das ocorrências de apreensão, incineração de drogas, erradicação de plantações ou a prisão de pessoas que estavam transportando drogas ilícitas. Essas matérias foram, em
geral, publicadas em artigos relativamente pequenos, basicamente informativos, muitas vezes, sem especificar adequadamente a droga em questão e com abordagem pouco cuidadosa.
Apesar do crescente número de matérias factuais e repressivas para a maconha e a cocaína, entre 2000 e 2003, foi observado, para as bebidas alcoólicas, aumento na frequência de temas relativos a políticas públicas.
Isso significa uma melhora na cobertura jornalística para o álcool nos últimos anos (Mastroianni, 2006).
Paralelamente, apesar do avanço qualitativo observado nas últimas décadas, o jornalismo brasileiro carece de debates mais amplos e amadurecidos na abordagem das intervenções de saúde pública. A diversidade
de opções terapêuticas e a possibilidade de recuperação são temas pouco explorados ou tratados de forma superficial.
As matérias sobre prevenção, embora mais trabalhadas, ainda poderiam oferecer uma visão menos persecutória e mais otimista, valorizando as potencialidades da comunidade, da escola e da família.

Os meios de comunicação, a prevenção e aresponsabilidade social

Apesar de diversos estudos apontarem os limites das intervenções preventivas puramente informativas sobre o uso de drogas, parece ser inegável a importância de seu papel. Como mencionado anteriormente, os meios de comunicação têm prestado auxílio a vários programas de saúde, seja por meio das informações jornalísticas ou por meio das campanhas publicitárias elaboradas, especificamente, com essa finalidade.
No entanto, quando se trata do uso indevido de drogas, os recursos da mídia vêm sendo pouco estudados e explorados como instrumentos de prevenção.
Em uma pesquisa qualitativa sobre a atitude dos jornalistas, Mastroianni (2006) observou que os profissionais consideravam superficial a cobertura sobre drogas em decorrência, principalmente, da “falta de tempo” e da “concorrência” entre os jornais/revistas. Esses dados mostram a necessidade de pesquisas e
de debates que estimulem a qualidade das matérias sobre drogas no País. A responsabilidade social da mídia tem sido apontada, também, como um fator importante a ser considerado.
No setor jornalístico, vale salientar o trabalho da Agência Nacional dos Direitos da Infância (ANDI), que vem divulgando uma série de estudos sobre mídia e mobilização social. Essa iniciativa tem como objetivo instrumentalizar os profissionais de comunicação a praticar um jornalismo socialmente responsável frente as diferentes temáticas relativas à infância e adolescência.

A mídia como aliada

A mídia é um poderoso instrumento nos tempos modernos, em que a informação parece ser a alma do negócio, tanto para o bem quanto para o mal. Quando pensamos em adolescentes e jovens, a força da mídia é ainda mais intensa.
Pare um pouco e reflita: um grande desafio que se coloca para quem trabalha com prevenção ao uso abusivo de álcool e outras drogas é “de que forma é possível utilizar a mídia como aliada?”. Se boa parte da mídia se ocupa em trazer mensagens, informações e conteúdos que estimulam o consumo e a experiência com as drogas, como ganhar espaço para falar de educação e prevenção?
Nas letras de música pop, a maconha é idealizada. Nos filmes, atores fumam com glamour seus cigarros. As propagandas de cerveja, trazendo situações sempre paradisíacas, invadem a casa e o imaginário dos jovens sem interrupção. Os jornais noticiam, com freqüência, apreensões de drogas e prisão de traficantes. Nesse universo, como pensar em um espaço que possa educar e informar?
É interessante notar que, de alguns anos para cá, a questão do álcool, do cigarro e das drogas ilícitas sensibilizou boa parte de quem decide na mídia brasileira. Não há jornalista, editor ou dono de empresa de comunicação que não parou para pensar nessa questão. Alguns percebem que têm um canal e um espaço importante para esclarecer e tentar fazer prevenção com seu público.
Espaços que discutem a questão das drogas têm se tornado mais frequentes na mídia nacional, da mesma forma que a AIDS e o sexo protegido ganharam destaque a partir da década de 80. Uma das grandes vedetes da mídia nacional, as novelas, tem se ocupado, seguidamente, da questão do álcool e de outras drogas. Personagens envolvidos com drogas e álcool, a repercussão da dependência na família e na vida do usuário, tudo isso está lá, quase que diariamente na telinha do brasileiro.
Nem sempre a abordagem em ficção é a melhor em termos de educação e prevenção, mas a discussão do tema, por si só, já é capaz de gerar impacto na população. Além desse exemplo, vale a pena prestar atenção em atitudes de TVs segmentadas e de revistas e jornais para o público jovem que, embora gerem um impacto menor em termos de audiência, têm maior liberdade para ousar mais e arriscar projetos mais efetivos para informação e educação.
A emissora MTV, por exemplo, há anos elabora algumas vinhetas e campanhas que mostram, de forma moderna e atraente, a discussão do impacto e do risco no uso de álcool e outras drogas. As TVs educativas, muitas vezes, trazem discussões sobre o assunto em sua grade de programação. Jornais e revistas também dedicam espaços para que o jovem possa se informar e discutir a questão das drogas. Serviços especializados em saúde, como o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, que traz a cada semana uma dúvida do público esclarecida por um especialista, além de uma página especial para os mais jovens, também ajudam nesse sentido.
Trabalhos como estes podem, sem dúvida nenhuma, gerar um aumento do nível de informação e da discussão sobre a questão das drogas na população brasileira. Nas últimas duas décadas, viu-se essa discussão acontecer de forma aberta, direta e com grande mobilização dos veículos de comunicação e da população na questão da AIDS.
O tom das abordagens mudou muito nesses 20 anos e a experiência acumulada foi fundamental para que o discurso ficasse mais afinado. Com a questão das drogas, talvez mais plural e complexa do que a questão da sexualidade, a tentativa de se achar a linguagem e o foco adequados está apenas começando. Há um longo caminho a ser percorrido. Esse caminho ficará mais rico e mais diverso se, a exemplo do que aconteceu na discussão sobre a AIDS, todos os setores da sociedade envolverem-se na discussão.
Talvez fique a impressão de que essas atitudes são modestas frente a grande pressão que outros setores da mídia exercem sobre o estímulo ao beber, ao fumar ou ao experimentar drogas. Contudo, é com um olhar atento nessas experiências recentes e na receptividade que elas vão obter junto aos especialistas, autoridades, anunciantes e população que se poderá pensar e planejar estratégias de maior impacto.

Referências:
ANDI (Agência Nacional dos Direitos da Infância). Equilíbrio distante:
tabaco, álcool e adolescência no jornalismo brasileiro. Série Mídia e
Mobilização Social vol 3. São Paulo: Cortez, 2003.
ANDI (Agência Nacional dos Direitos da Infância). Mídia e drogas.
São Paulo: Cortez, 2005.
CARLINI-COTRIM, B; GALDURÓZ, J.C.F.; NOTO, A.R. & PINSKY,
I. A mídia na fabricação do pânico de drogas: um estudo no Brasil. Comunicação
& Política 1(2), 1994, p. 217-230.
GORGULHO, M. “The role of the media in promoting responsible
alcohol use”. In: BUNING, E.B.; GORGULHO, M.; MELCOP, A.G. &
O´HARE, P. Alcohol and harm reduction: an approach for countries
in transition. ICAHRE (International Coalition on Alcohol and Harm
Reduction), 2003.
MASTROIANNI FC. As drogas psicotrópicas e a imprensa brasileira:
Análise do material publicado e do discurso dos profissionais da
área do jornalismo. Tese. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo;
2006.
NOTO, A.R.; BAPTISTA, M.C.; FARIA, S.; NAPPO, S.A.; GALDURÓZ,
J.C.F. & CARLINI, E.A. Drogas e saúde na imprensa brasileira: uma
análise de artigos publicados em jornais e revistas. Cadernos de Saúde
Pública 19, 2003, p. 69-79.
NOTO, AR; PINSKY, I & MASTROIANNI, F. Drugs in the Brazilian
print media: an exploratory survey of newspaper and magazine stories
in the year 2000. Substance Use and Misuse 41, 2006.

Cerveja, imprensa, drogas e políticos



Nesta quinta feira , assistindo a TV Camara prestei muita atenção no tema abordado pelo Deputado Federal gaúcho Paulo Pimenta-PT. O deputado cobra coerência e responsabilidade do parlamento na questão da proibição das propagandas de cervejas, nos moldes adotado com o tabaco. Você pode assitir clicando aqui e aqui .
O deputado criticou a posição da grande mídia, que em suas manifestações sobre a violência nas estradas brasileiras ignorou, mais uma vez, a medida apontada pela Organização Mundial da Saúde, que sugere a restrição da publicidade de cerveja como medida para redução do número de mortes no trânsito. "A combinação álcool e direção é abordada por vários ângulos pela mídia, entretanto, uma medida eficaz apontada pela OMS é sistematicamente deixada de lado. Eu gostaria que a imprensa fizesse editoriais cobrando, como faz com tantas temas, que o Parlamento tivesse coragem de aprovar uma lei restringindo a publicidade de cerveja. Por que não há uma cobrança forte, organizada da mídia nacional com relação a esse assunto"?, questionou Pimenta.
 Em um exemplo simbólico, Pimenta utilizou a edição desta quinta-feira do jornal O Globo, que em uma página traz editorial sobre o número de acidentes e mortes no período do carnaval "Violência nas estradas é tragédia nacional". Entretanto, esse mesmo jornal em uma página anterior ao editorial estampa uma publicidade de carros e na página seguinte, uma publicidade de cerveja.
 "Chega a ser uma situação inusitada. Nós compreendemos que há muitos interesses e muito dinheiro envolvido, mas não há dinheiro que justifique uma omissão de um país como o Brasil. Os telejornais brasileiros trazem estatísticas das mortes no trânsito, e no intervalo o que se oferece é cerveja e mais cerveja", protestou o deputado.
 O parlamentar criticou também a omissão do parlamento que cedeu às pressões das grandes empresas de cerveja, quando em 1996 foi aprovada a lei que estabeleceu controles à publicidade de cigarros em horário nobre na televisão brasileira.
Ontem através do twitter, triangulei esta discussão com a Senadora Ana Amélia Lemos-PP, que me cobrou dados estatísticos das mortes relacionadas ao álcool/direção. Entretanto a senadora não quis assumir a bandeira da proibição de comerciais de cervejas na mídia. Ontem, falei que entraria em contato com a assessoria de Deputado Pimenta pra que lhe remetesse estes dados. Resolvi fazer diferente. Decidi que vou escrever uma série de artigos aqui no blog, vamos tratar da drogadição, aspectos, prevenção e assitência, classificação e efeitos das drogas no organismo, novas formas de pensar e enfrentar a drogadição e o álcool, enfim, temas que se interligam. A título de informação, tenho capacitação e fiz também extensão na UFSC sobre prevenção ao uso indevido de drogas, bebo cerveja e sou fumante.

Os meios de comunicação e a opinião pública sobre drogas
O uso abusivo de álcool e outras drogas é uma questão que envolve vários setores da sociedade. Abrange aspectos jurídicos, policiais, médicos, educacionais, ocupacionais, familiares, entre outros. Trata-se, também, de um tema carregado de crenças, conteúdos emocionais e morais, que foram construídos e legitimados aolongo da história. Atualmente, a postura social frente ao uso de bebidas alcoólicas e outras drogas é marcada pela contradição do lícito e do ilícito, bem como pela diversidade de opiniões a respeito dos danos, benefícios, prazer e desprazer. Os meios de comunicação acompanham essas contradições. De um lado, a população recebe uma série de informações sobre a violência relacionada ao tráfico e sobre os “perigos das drogas” e, por outro lado, é alvo de sofisticadas propagandas para estímulo da venda de bebidas alcoólicas. Nesse contexto, esses grupos de “drogas” semelhantes em vários aspectos farmacológicos, passam a ser encarados tão distintamente na opinião pública, o que gera posturas extremamente incoerentes sob a ótica da saúde. No Brasil, a ideia de uma suposta “explosão de uso” de drogas ilícitas a ser combatida foi aos poucos divulgada pela imprensa e assimilada pela opinião pública. Os primeiros estudos epidemiológicos realizados no Brasil, no final da década de 80, mostraram que, até aquele momento,o número de estudantes usuários de substâncias ilícitas era relativamente pequeno e estável. No entanto, alguns anos mais tarde, no início da década de 1990, o número de usuários de maconha e cocaína realmente começou a aumentar. O fato de a imprensa ter alardeado um aumento do uso de algumas drogas, anos antes de acontecer, poderia ser encarado de várias maneiras: a mídia como indutora do uso (incentivando o uso pelo excesso de informações) ou a mídia como indicador epidemiológico (teria sido capaz de detectar um fenômeno antes de ser mensurado pela ciência). Na verdade, mídia, opinião pública, comportamento de uso de drogas e políticas públicas interligam-se em uma relação complexa. A imprensa, ao divulgar as inúmeras matérias sobre drogas, não estabelece, necessariamente, o que a população vai pensar, mas coloca em pauta o assunto a ser debatido, influenciando a chamada “agenda pública”. Os temas são colocados em discussão e, dessa forma, são estabelecidas as prioridades. Cinema, teatro e novelas também têm trabalhado questões relativas ao uso de drogas. A novela “O Clone” e o filme “Bicho de sete cabeças” são alguns exemplos[ de materiais artísticos que mobilizaram a opinião pública sobre drogas
no Brasil. Diferentemente das demais formas de comunicação, a publicidade tem como objetivo explícito promover a mudança de comportamento. A publicidade de bebidas alcoólicas, especialmente de cervejas, recebe consideráveis investimentos e tem tido grande sucesso na promoção de seus produtos. Em outro contexto, o trabalho dos meios de comunicação com outros temas relacionados à saúde (como, por exemplo, AIDS e câncer de mama) tem sido de fundamental importância para o sucesso das campanhas preventivas e ajudaram a população a superar crenças e priorizar a saúde. Nesse complexo cenário das drogas na mídia, a opinião pública é construída, consolidando conceitos e crenças da população. Apesar da relevância dos meios de comunicação como um potencial instrumento auxiliar nas políticas públicas, poucos esforços têm sido dedicados à compreensão dessa questão.

*parte do texto adaptado do curso de prevenção do uso de drogas para educadores de Escolas públicas. Senad (2006).
Ana Regina Noto

sexta-feira, 11 de março de 2011

Pampa para sempre


Obrigado meu Deus, pelo pampa, por todas as suas criaturas, tuas criaturas, e livrai-nos da tentação do eucalipto e pinus, agora e sempre, na nossa APA e em todo o pampa.

Charge do Santiago, recuperada no Blog do Fábio Régio

Quem tem medo da democracia no Brasil?


O Brasil saiu da ditadura política, mas as transformações estruturais que poderiam democratizar o país nos planos econômico, social e cultural, não foram realizadas. O governo Sarney representou essa frustração, essa redução da democratização aos marcos liberais da recomposição do Estado de direito e dos processos eleitorais.

Em seguida o país foi varrido pelas ondas neoliberais – com os governos de Collor, Itamar e FHC – sofrendo graves retrocessos no plano econômico – com a retração do Estado, com a abertura da economia, com as privatizações -, no plano social – com o retrocesso nas politicas sociais, com a expropriação de direitos da maioria, a começar pela carteira de trabalho –, no plano politico – com o poder do dinheiro corrompendo os processos eleitorais – e no plano cultural – com a consolidação dos grandes monopólios privados da mídia, que concentraram nas suas mãos a formação da opinião púbica.

Foi nesta década que esse processo começou a ser revertido e o Brasil pôde retomar seu processo de democratização. No plano econômico, com o Estado retomando seu papel de indutor do crescimento promovendo o acesso ao crédito a pequenas e médias empresas, com a expansão do mercado interno de consumo popular. No plano social, com a incorporação, pela primeira vez, das grandes maiorias de menor renda ao mercado de consumo e à possibilidade de ter formas de atividades econômicas rentáveis e sustentáveis. No plano político, quebrando o controle das elites mais atrasadas sobre as massas de regiões periféricas do país, com a participação nas politicas governamentais e nos processos eleitorais dos movimentos populares e dos setores até então marginalizados e subordinados politicamente. E no plano cultural, com alguns avanços, como a descentralização das publicidades governamentais, com o surgimento e fortalecimento de mídias alternativas – especialmente da internet -, assim como com um discurso que levanta a autoestima do país, quebra preconceitos em relação ao papel da mídia privada e de comportamentos egoístas da elite brasileira.

Mas as resistências não se fizeram esperar. As pressões para que o Brasil mantenha a taxa de juros mais alta do mundo, que atrai capital especulativo – que não cria nem riquezas, nem empregos, que ajudar a desequilibrar a balança comercial, entre tantos problemas – continuam fortes. Esse mecanismo impede a democratização econômica do país, porque concentra nas mãos do sistema financeiro a maior quantidade de recursos, com taxas de juros altas dificulta o acesso ao crédito, monopoliza recursos do Estado para o pagamento da dívida pública. O PAC é o grande instrumento de reconversão da hegemonia do capital especulativo para o capital produtivo, mas ele corre contra a atração da alta taxa de juros. A democratização econômica requer terminar com essa atração do capital, pela alta taxa de juros, para o setor financeiro.

A democratização social encontra obstáculos nos que se opõem à integração plena dos setores até aqui completamente marginalizados. A democratização social seus principais obstáculos nos que lutam para bloquear a expansão dos recursos para as politicas sociais que promovem os direitos de todos e nos preconceitos que continuam a ser difundidos contra os mais pobres e os habitantes das regiões até aqui marginalizadas do país.

A democratização política se choca com os que se opõem a uma reforma política que faça com que as campanhas se apoiem exclusivamente em financiamento publico e em votos por lista, que favorecem o fortalecimento ideológico e politico dos partidos. Mas encontra obstáculos também nos partidos e movimentos populares que não se dedicam a apoiar a organização dos setores que chegam agora a seus direitos econômicos e sociais básicos, seja os que estão integrados ao bolsa família, seja a cooperativas e pequenas empresas, seja a programas como os Pontos de Cultura e outros similares.

A democratização cultural significa que as distintas identidades do povo brasileiro possam construir seus próprios valores para orientar suas vidas, suas próprias formas de expressão cultural, possam ter acesso às múltiplas formas de cultura. Que possa se libertar dos modelos de consumismo importados e difundidos pela mídia comercial, pela publicidade massiva, pelos valores divulgados pelos representantes dos grandes monopólios.
Significa o direito de ter acesso livre e universal à internet, possa ter acesso à cultura como bem comum, que possa ter acesso a livros, a músicas, a pinturas, a peças de teatro, a filmes, a todas as formas de cultura e que tenha possibilidades de produzir suas próprias formas de expressão.

A democratização cultural enfrenta obstáculos na gigantesca máquina de interesses econômicos privados dos monopólios que dominam a mídia, o setor editorial, o audiovisual. Enfrenta ainda os setores mercantis que tentam dominar e controlar a livre produção e consumo culturais, as corporações que se apropriam dos recursos fundamentais das obras artísticas, incentivando ainda mais o poder econômico sobre a esfera cultural. Só mesmo um imenso processo de democratização da cultura poderá fazer do Brasil um país realmente independente, soberano, justo, plural.

Quem tem medo da democracia no Brasil? As elites, que fizeram do nosso país o mais desigual do mundo, e agora se ressentem da inclusão social dos que sempre foram postergados, discriminados, humilhados, ofendidos, marginalizados. São os que sempre tiveram todos os privilégios e acreditavam que o país era deles, que o Brasil era das elites brancas e ricas.

Quem tem medo da democratização tem medo dos trabalhadores, que produzem as riquezas do Brasil. Tem medo dos trabalhadores sem terra, que querem apenas acesso à terra no país com maior área cultivável no mundo, importa alimentos, mas mantem milhões de gente no campo sem acesso à terra. Tem medo dos jovens, que não leem jornais, mas leem e escrevem na internet, irreverentes, que lutam pela liberdade de expressão e de formas de viver, em todas as suas formas. Tem medo dos intelectuais críticos e independentes, que não tem medo do poder dos monopólios e da imprensa mercantil e suas chantagens. Tem medo dos artistas e da sua criatividade sem cânones dogmáticos e sem pensar no dinheirinho dos direitos de autor, mas na liberdade de expressão e na cultura como um bem comum. Tem medo dos nordestinos pobres, que como Lula, não se rendeu à pobreza e à discriminação e se tornou o presidente mais popular do Brasil. Tem medo de que todos eles queiram ser como o Lula.

Quem tem medo da democracia no Brasil tem saudade da ditadura, quando detinha o monopólio da palavra, conversavam e elogiavam os militares no poder, sem que ninguém pudesse contestá-los publicamente. Os que têm saudades do Brasil para poucos, da elite que cooptava intelectuais para governar em nome dela.

Quem não tem medo da democracia no Brasil não tem medo de nada, porque não tem medo do povo brasileiro.

Artigo de Emir Sader no portal Carta Maior

quarta-feira, 9 de março de 2011

O governo guasca não é petista?



No final de semana carnavalesco na fronteira tive encontros e conversas até certo ponto inusitadas. Pessoas que te imaginam parte ativa do governo, que te fazem perguntas efetivas e cobram posições. É como se você tivesse que responder por governos ou políticas de governo. Numa roda com professores estaduais, alguns filiados ao PT e outros não, fui questionado sobre salários do magistério, piso nacional e plano de carreira. As Professoras mais exaltadas me diziam:
Este é o governo do PT, vocês vão mexer no nosso plano de carreira?
Tarso Genro vai pagar o piso nacional?
Ele fará como Yeda que se propôs a pagar o piso e nos retirar direitos?
Quando o barco começa a fazer água a melhor decisão é colocar o colete salva-vidas, aliás, esta deveria ser a primeira providencia ao entrar no barco. Quase que numa braçada de afogado, brequei a discussão com uma sinceridade inconfundível!
Péra lá! O governo não é petista.
Como assim, não é petista? Me retrucaram.
Vocês ganharam a eleição, tu está querendo nos conversar? Sabemos da tua capacidade de argumentação, entretanto não somos ingenuas amigo. O discurso não era este.
Ok! Quero dizer a vocês que sei do compromisso do governador, não apenas com o piso nacional, mas, também com o plano de carreira do magistério estadual. Entretanto, o governo não é petista. Entenderam? O governador é petista, mas, o governo em sua maioria é não petista.
É bem verdade que a secretaria de educação é do PT, mas, mesmo assim existem vários partidos que compõem esta secretaria.
O governo do Rio Grande é um governo de coalizão, pior, é um governo de “transversalidade”.
Creio que me enrolei mais ao dar este tipo de explicação. Elas voltaram a carga.
Isto, é mais um subterfúgio pra fugir dos compromissos. Tu sempre tenta te safar das discussões e defender teus amigos petistas. Tu também deve estar no governo da Dilma ou do Tarso.
Não. Não é verdade isso. Perguntem aos petistas do governo, eles dirão a vocês que a tal transversalidade existe.
Vocês lembram do Lara? Aquele deputado aqui de Bagé? Aquele que fez um carnaval no 20 de setembro no governo do Rigotto?
Claro que lembramos, me contestam. Ele também foi secretário do governo Yeda.
Pois é, me exibo, já meio recuperado.
Ele também é secretário neste governo.
E, lhes digo mais. Lembram do PDT? Aquele partido que era vice do Fogaça?
Sim, me respondem. O que tem eles?
Estão no governo. São os donos da saúde.
Da saúde? Me questionam.
Sim, da saúde e mais um lote de diretorias nas mais diversas secretarias. Isso é a transversalidade.
É uma salada de partidos misturadas em varias secretarias e departamentos. Digo mais, além dos partidos aliados, dos que concorreram contra o PT, ainda existem os remanescentes do PMDB e PSDB que continuam neste governo.
Portanto, o governo do Rio Grande do Sul, não é um governo petista.
É um governo “transversal e de coalizão”.
Tenho a impressão real que saí desta discussão como mentiroso, conversador.

Petismo santanense


Neste feriado aproveitei pra retornar a fronteira, rever amigos e botar a charla em dia, também participar da festa dos 29 anos do diretório municipal do PT e 31 anos de fundação do partido. Reencontrei velhos companheiros e também amigos de outras siglas. O ponto alto da festa foi a homenagem aos primeiros candidatos petistas, ano 82 e lá estavam Santaninha, Canabarro, Lia, Gisler e Pedro Osório concorrendo á prefeito, deputados e vereadores. Também foi possível antever uma possível disputa interna pra definir quem será o candidato do PT ano que vem a prefeitura de Livramento. Os nomes citados nas falas são da ex-senadora Emília Fernandes, do ex-prefeito e que disputou também em 2008, Elifaz Simas e o vereador eleito e hoje na Sec. Educação Glauber Lima. Independente, de quem for o candidato, urge esta definição de nomes e a discussão sobre políticas de aliança e programa de governo. É chegada a hora de ver o PT pela primeira vez governar o Rincão do Atraso, rompendo um ciclo de conservadores aliados aos falsos socialistas que seguem o ideário liberal.