sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A nova luta pela independência

Acossada por uma crise econômica gravíssima, a Europa busca reforçar a aliança histórica com os Estados Unidos, a fim de consolidar e ampliar a sua presença na América Latina e na África – mas isso parece improvável.

Todos os movimentos, diplomáticos e militares, nestes últimos meses, dão nitidez a essa percepção, expressa ainda de maneira discreta por alguns analistas internacionais. Trata-se, conforme a velha imagem, do abraço dos afogados.

Ainda agora, Zapatero, que assumiu o governo com grandes esperanças da esquerda, depois da desoladora atuação da direita, com Aznar, leva a Espanha a integrar o famoso escudo antimísseis dos Estados Unidos, permitindo aos ianques que, para isso, utilizem sua base naval em Rota, na Andaluzia. Essa base, construída em 1953, quando Washington estreitou relações com Franco, seu aliado na guerra fria, ocupa uma área estratégica no Atlântico, fora das águas do Mediterrâneo.

O passo humilhante de Zapatero não revela apenas submissão ideológica, mas erro político, mesmo dentro da consciência burguesa de nação. Como apontou, em seu editorial de hoje, sexta-feira, El País, trata-se de uma provocação à Rússia, que deve ser convencida a influir para que o Irã renuncie a seu projeto nuclear bélico. É claro que os russos, que não nasceram ontem, e conhecem a Europa Ocidental desde Ivã, o Terrível, sabem muito bem a que alvo apontam os foguetes norte-americanos. O fortalecimento de seus laços com o Irã e sua estratégia, a prazo maior, de restabelecer sua influência na Eurásia, com a esperada saída dos ianques do Iraque e do Afeganistão, orienta-lhe a postura. Seu veto à ameaça contra a Síria, ao lado da China, no Conselho de Segurança, é mais do que uma cortesia a Assad.

O quadro internacional, se é preocupante por um lado, com a rearticulação dos velhos imperialistas, é, da mesma forma, oportunidade para a consolidação institucional da União Sulamericana, como passo necessário a aliança mais vasta, que compreenda todos os países do continente ao sul da fronteira com os Estados Unidos. Enfim, é hora da definitiva independência de nossos povos, 200 anos depois da enganosa autonomia patrocinada pela Inglaterra e aprovada pelos europeus no Congresso de Viena.

O momento favorece, também, o retorno à esquerda, depois do desastrado recuo da União Soviética, com a traiçoeira capitulação de Gorbatchev. No mundo inteiro, e também no Brasil, houve o esmorecimento dos partidos de esquerda, com a deserção de conhecidos quadros intelectuais, e a permanência de diminutos núcleos de testemunho e resistência ideológica.

Na Europa, a social-democracia foi fazendo seu giro à direita, que atingiu também os partidos comunistas. O primeiro passo desses antigos partidos comunistas foi o abandono da denominação, como se o adjetivo, de origem tão generosa, se tornasse palavrão imoral. Enfim, parecia triunfante, ad-aeternum, o pensamento único, restaurador do fundamentalismo mercantil do século 17.

Passados trinta anos do reaganismo e vinte anos da Queda do Muro, o mundo desperta e, com ele, se restaura a silhueta de Marx. Teremos que voltar à consciência crítica e à filosofia da práxis, a fim de dar idéias ao movimento de massas que acaba de chegar aos Estados Unidos, e se acelere o processo histórico que, sendo necessário, passa a ser possível.

O Brasil, descontado o otimismo exagerado de alguns, terá de exercer resistência clara ao novo colonialismo, na consolidação da aliança continental, a partir dos mecanismos existentes, como o Mercosul, a Unasul, e o sistema de consultas militares entre os vizinhos. Devemos controlar, sem inibições, a atividade dos capitais estrangeiros. É conto da carochinha supor que o Banco Santander – que teve ontem sua nota rebaixada em diversas praças do mundo – esteja interessado no desenvolvimento autônomo do Brasil e em sua ação decisiva nas questões mundiais. O que os espanhóis pretendem é retornar ao domínio da América Latina, aproveitando-se da debilidade dos Estados Unidos. No âmago de sua arrogância, seus dirigentes acreditam que podem voltar aos séculos 16 e 17, ao tempo de Carlos V e de Filipe II, antes do desastre da Invencível Armada.

Convém recordar que a impetuosa invasão econômica da América Latina, com a compra de empresas nacionais, a partir das privatizações determinadas pelo Consenso de Washington e, no Brasil, pela submissão de Fernando Henrique, tem sido financiada com recursos da União Européia – que deveriam ter tido outro destino.

A nossa oportunidade é agora.

Artigo de Mauro Santayana no site da Carta Maior

Toddynho guasca

terça-feira, 4 de outubro de 2011

‘A regulação é indispensável’

Em uma palestra sobre o atual jornalismo brasileiro na Faculdade Cásper Líbero, na segunda-feira 3, o jornalista Mino Carta, diretor de redação de CartaCapital, defendeu a regulamentação da mídia como forma de controlar os interesses dos proprietários de veículos do setor. “Quando se toca neste assunto, a mídia se apressa em dizer que está sendo tolhida. Porém, trabalhei fora do país em um lugar onde patrão não poderia ser diretor de redação por lei. É indispensável estabelecer esse limite”, disse Carta.
Em palestra sobre o atual jornalismo brasileiro,
diretor de redação de CartaCapital diz que a mídia nacional é omissa.
 Foto: Faculdade Cásper Líbero
Aos 77 anos, o jornalista, criador das revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital e do Jornal da Tarde, afirmou a uma platéia lotada, principalmente por estudantes de jornalismo, que a profissão reflete os atrasos políticos e sociais do País. “Não tenho uma boa opinião do jornalismo brasileiro e isso não deve mudar a curto ou médio prazo”, alfinetou.

Porém, essa visão não desanima a estudante de jornalismo Helena Lima. “É uma análise bem realista, mas não chega a assustar”, observou. “Creio que essa análise pessimista é até comum entre os jornalistas de uma forma geral”, concordou a também estudante Carolina Salomão, de 21 anos.
Segundo Carta, “alguns senhores, donos de veículos de mídia, carregam a herança da Casa Grande. Mostram um país que eles gostariam de ver”. Como exemplo deste posicionamento, cita o episódio ocorrido com o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, na França, na última semana.

Na oportunidade, Lula recebeu o seu sétimo título de doutor honoris causa. A premiação era do Instituto de Estudos Políticos de Paris, o Sciences Po, que concedeu a honraria pela primeira vez a um latino-americano. O diretor de redação de CartaCapital destacou que alguns correspondentes brasileiros na coletiva de imprensa “encarnaram seus patrões e manifestam o ódio de classe”. “Questionaram a decisão de uma respeitada instituição que pesou prós e contras, perguntando como era possível alguém que nunca leu um livro receber um título de doutor.”

A estudante de jornalismo Renata Moura, de 21 anos, concordou com as críticas feitas por Carta à mídia nacional, e aos seus correspondentes a “encarnar seus patrões”. “Acredito que é importante debater esse aspecto de casa grande e senzala e os problemas do jornalismo brasileiro, entre eles o fato de que os donos não deveriam ser diretores de redação.”

O criador de CartaCapital também mostrou-se preocupado com fato de alguns veículos de imprensa não se conscientizarem da importância de levar aos leitores uma informação correta. “É preciso sempre manter a fidelidade canina à verdade factual, mas infelizmente o jornalismo brasileiro atual não a respeita e omite fatos quando não lhe convém que algo venha à tona. Isso quando não mente.”

Carta falou também sobre o dever da imprensa em fiscalizar o poder, que nem sempre está na política. “Entendemos sempre que a política é corrupta, mas há uma via de duas mãos, quem corrompe e quem é corrompido. Nessa operação não existe somente políticos, há os senhores do poder, não só deputados, ministros e senadores.” Em seguida, ironizou: “A nossa corrupção é a mais glamurosa do mundo.”

Opinião
Segundo Carta, há espaço para a opinião no jornalismo, desde que seja feita uma apuração apresentando todas as partes envolvidas. “O espírito crítico nos permite saber que estamos vivos, é uma dádiva”, declarou, apontando que o formato de CartaCapital difere das demais revistas semanais do Brasil por ter uma característica de análise.

Sobre sua carreira, ele destacou a liberdade técnica que teve para fundar o Jornal da Tarde, na década de 60. “O jornal saia às 12h no centro de São Paulo. Era corajoso, bem feito e valorizava as grandes reportagens, além do tom literário. Embora tenha que admitir, o jornal cresceu muito após a minha saída em 1968 para dirigir a Veja, tendo o seu ápice até 1973.”
Em relação à semanal que também fundou, Carta é enfático: “Criei um monstro”. Porém, mantém o bom humor ao ser questionado se, como ex-diretor da revista Quatro Rodas, uma publicação sobre carros, sabe dirigir. “Não sei a diferença entre um Fusca e uma Mercedes. Talvez por isso a revista tenha sido um grande sucesso”, brincou.

O jornalista também falou sobre a internet como ferramenta para buscar informações em mídias alternativas aos grandes veículos de imprensa. “É um instrumento excelente, mas depende de quem está usando”, declarou. “Já tive e abandonei um blog porque por trás desse negócio há uma questão moral. Quem escreve não se identifica, ofende e não mostra quem é ou o que quer.”
Uma característica que, segundo Moura, não deve ser encarada de forma negativa. “Se você é um Mino Carta ou Rubens Paiva, vai ser atacado, mas é importante continuar escrevendo, é apenas mais um aspecto desse meio.”

Artigo do Gabriel Bonis na Carta Capital

Pra economistas e iniciados! Dilma massacra Miriam, vale a pena ver de novo




Pescado  do Conversa Afiada

Líbia livre...

domingo, 2 de outubro de 2011

Corvos e urubus


Repararam que tem gente, que se diz de esquerda, mas que só aparece para criticar a gente de esquerda? Nunca contra a direita, o que quer que esta faça. São especialistas em jogar álcool em qualquer foguinho dentro da esquerda.

Nunca reconhecem vitórias, conquistas, avanços. São apenas prenúncios de derrotas, traições, retornos da direita – cuja culpa será sempre denunciada como responsabilidade da esquerda. Adoram as derrotas, quanto maior, melhor, porque a culpa é dos outros, não importa que o povo seja quem pague o preco.

São ótimos para fazer balanços de derrotas, mas nunca sabem propor alternativas e nunca conseguem dirigir processo algum. São sempre críticos. Espécies de urubus, especialistas em carniças. Corvos, que auguram sempre catástrofes.

Não dá para ter respeito por alguém que se diz de esquerda, mas não está em todas as paradas da luta contra a direita. Aí ficam quietos, espreitando para atacar a esquerda, seja porque não é suficientemente radical, seja porque não derrotou de forma radical e definitiva a direita. Eles mesmos, não são capazes de afetar o poder da direita, nem estão centralmente preocupados com isso, lhes importa sobretudo as “traições” da esquerda.

Numa circunstância grave como a da Bolívia atualmente, por exemplo, colocam para fora o rancor com Evo Morales e sua liderança, como antes tiveram essa atitude contra Lula no Brasil. Todos “traíram”, incluídos Hugo Chaves, Rafael Correa, Pepe Mujica, os Kirchner, Fernando Lugo, Mauricio Funes, só eles são puros. Só que o povo não acha isso, de forma que essa gente nunca consegue formar movimentos populares com forte participação do povo, não dirigem nenhum processo, não conseguem citar um caso em que suas ideias levaram a vitórias e a avanços.

Não elogiam a reforma agrária, a nacionalização das minas, a Assembleia Constituinte postas em prática por Evo. Não apoiam as medidas de política externa soberana do Brasil, no reconhecimento da Palestina, na mediação do Irã, no apoio a Cuba. Só denúncias, porque seu universo não é a luta geral do povo, mas o universo restrito da esquerda. Não fazem luta de massas, só luta ideológica. Não constroem força política para que a esquerda avance, sempre tratam de dividir.

Os conflitos na esquerda, no campo popular, tem que ser discutidos e tratados como conflitos entre tendências de esquerda, mais moderadas ou mais radicais, sem desqualificações que caracterizem os outros como fora do campo da esquerda. Esta atitude é o primeiro passo que leva a assimilar outras tendências da esquerda à direita e assumir equidistância em relação a elas.

Numa situação de crise como a da Bolívia atualmente, tudo o que podemos desejar é que se chegue a um acordo político entre o governo e setores do movimento indígena que estão em enfrentamento aberto. Nem o governo é de direita, nem os movimentos indígenas fazem o jogo da direita. É nesse marco que devemos almejar que sejam enfrentados os conflitos.

Como no Brasil, deve-se criticar o governo e o PT no que se diverge, e apoiar nos pontos comuns. Fazer frente única no que há de comum, a começar na luta contra a direita. E criticar naquilo em que ha divergências. Considerando que são diferenças no campo da esquerda e não é possível equidistância entre o governo e a oposição, o PT e a direita.

Texto do Emir Sader no site da Carta Maior

Las buenas cosas del ....RJ-rock y no cantadas