sexta-feira, 8 de março de 2013

Valió la pena


Por Luiz Inácio Lula da Silva *
 
La muerte del compañero Chávez, para la política de América del Sur, para América latina y diría que para el mundo, es una pérdida irreparable. Chávez era un hombre 80 por ciento de corazón y 20 por ciento de razón, como creo que deben ser todos los grandes hombres del mundo. Chávez pensaba mucho en su pueblo y, sobre todo, en las personas más pobres. Tuve el placer de conversar con Chávez muchas veces.
 
Lo conocí en los tiempos del Foro de San Pablo. Después tuve la oportunidad de conocerlo mejor cuando él ya era presidente y yo había sido electo también presidente, pero aún no había asumido, para atender un pedido de petróleo de Venezuela, en ocasión de una huelga de los trabajadores de Pdvsa. A partir de mi aporte establecimos una relación muy fuerte porque teníamos muchas afinidades.
 
Si teníamos divergencias ideológicas, teníamos muchas afinidades políticas, coincidíamos en el papel que debía jugar la relación estratégica entre Brasil y Venezuela, compartíamos la relación estratégica que debíamos tener con los países de América latina y comprendíamos el papel de los países pobres, sobre todo los de América del Sur, en el enfrentamiento construido con los países del Norte, sobre todo en la cuestión comercial y política. Eso hizo que un día, en 2007, pasáramos a tener una relación, más que entre dos presidentes, entre dos compañeros. Es decir que para evitar que hubiese cualquier problema en la relación entre Brasil y Venezuela, acordamos con Chávez que podríamos organizar tres o cuatro reuniones bilaterales por año: un encuentro en Brasil, otro en Venezuela para que pudiésemos generar una asociación que permitiese equilibrar el comercio entre nuestros países.
 
De ahí surgió la idea de instalar una refinería en Berlinda.
 
Mucha gente dice que Chávez era un hombre polémico y era bueno que él fuera así, porque Chávez hacía que las reuniones de Unasur y de los encuentros en los que hemos participado fueran siempre muy intensos, donde había mucho debate. El no permitía que las personas paralizaran una reunión. Incentivaba el debate con temas polémicos. Lo que importaba era que él estaba ahí presente, vivo, discutiendo los intereses de Venezuela y de América latina y, sobre todo, discutiendo los intereses de los pueblos más pobres. Pienso que no basta un siglo para producir un hombre de las cualidades de Chávez. No se ve todos los días a un país que elige a una persona que tiene un compromiso diferente con su pueblo. Chávez sabía que las razones para estar en el gobierno eran hacer que el pueblo de Venezuela se sintiese orgulloso, que pasase a tener derechos, trabajo, salud y la posibilidad de estudiar.
 
Obviamente, enfrentó una oposición muy férrea, como todos enfrentamos en América latina. Todos los gobiernos progresistas se enfrentan a muchas adversidades. Pero creo que el paso del compañero Chávez por el gobierno de Venezuela valió la pena. Valió la pena no sólo por las conquistas; valió la pena por el símbolo de lo que hizo en defensa de su país: recuperó la autoestima de un pueblo, de los niños, y provocó que su pueblo pasase a creer que Venezuela era mucho más grande de lo que las elites intentaron hacerles creer.
 
Creo que las ideas de Chávez, como las Bolívar, perdurarán por mucho tiempo, porque América latina vive un momento excepcional y Chávez tiene mucho que ver con eso, en la creación de la Unasur, la Celac, el Consejo de Defensa de la Unasur, el Banco del Sur y tantas otras ideas que volcábamos en un papel y debatíamos, cuestiones que hemos ido concretando de a poco. Espero que el pueblo venezolano comprenda que en este momento se necesitan mucha paz, madurez, tranquilidad y unidad porque Venezuela no puede retroceder.
 
El pueblo de Venezuela aprendió a confiar en su gobierno, el pueblo de Venezuela aprendió a sentir orgullo de su país y eso representa un valor inestimable que no se puede olvidar. Hay divergencias políticas que continuarán existiendo, pero eso debe ser menor en la relación de los partidos políticos y de las fuerzas políticas para construir un clima de paz y mucha tranquilidad, porque Venezuela necesita continuar creciendo, generando trabajo, riqueza y mejorando la vida de su pueblo. ¡Que Dios cuide de Chávez como él lo merece! Tuve el placer de compartir con él ocho años de presidente y siento el orgullo de haber compartido con él la construcción de tantas cosas positivas. Y también guardo la tristeza de no haber hecho más.
 
De cualquier forma, valió la pena. ¡Compañero Chávez: si usted no existiera, debería volver a nacer porque el mundo necesita dirigentes como usted! ¡Que Dios lo bendiga!
 
* Ex presidente de Brasil.
 
Artigo do Lula no Jornal argentino Pagina 12

quinta-feira, 7 de março de 2013

“O que está em jogo vai além dos pedágios. É a relação do Estado com a sociedade”

 
“As empresas aderem a contratos. Para entender essa modelagem contratual dos pedágios, nós devemos olhar que forças políticas dominavam o Estado quando foram assinados” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
 
 
Marco Aurélio Weissheimer
Especial para o Sul21
 
Desde a década de 1980, o tema dos pedágios desempenha um papel central na vida política do Rio Grande do Sul. O debate sobre a administração das estradas ultrapassa a dimensão meramente econômica, envolvendo concepções sobre a própria natureza do Estado. Para o governador Tarso Genro, que decidiu mudar o modelo de pedagiamento vigente há décadas e motivo de muitas reclamações por parte dos usuários, o que está em jogo neste processo vai além da questão dos pedágios em si. “Trata-se, fundamentalmente, do tipo de relação entre Estado e sociedade que interessa à maioria da população e não apenas a determinados grupos econômicos”.
 
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Em entrevista ao Sul21, concedida terça-feira (5) à tarde, no Palácio Piratini, Tarso Genro falou sobre a decisão do governo gaúcho de mudar o modelo de pedágios vigente no Estado e as implicações políticas, econômicas e sociais dessa iniciativa. Para o governador do Estado, há uma disputa entre dois modelos sendo travada no Rio Grande do Sul. Ao falar sobre esse tema, ele aponta o sentido estratégico de seu governar: formar um novo bloco social e político no Estado. “Um bloco que pode ter suas contradições internas, mas que deve ter um amálgama cultural, político e econômico portador de um compromisso com um modelo alternativo em relação ao que ocorreu no governo anterior”. Um governo que, diz ainda Tarso, “atrasou o Rio Grande do Sul em todos os setores”.
 
Sul21: O que representa a decisão do governo gaúcho de mudar o modelo de pedágios vigente no Estado. Quais são as diferenças entre o modelo atual e o que está sendo proposto agora pelo governo?
Tarso Genro: O modelo atual foi construído na época áurea da influência do neoliberalismo e do Consenso de Washington sobre os governos. Essa também foi a época em que a socialdemocracia começou sua grande guinada em direção à direita. A repercussão desse ideário e dessa ideologia foi grande em países como o nosso, que naquela época estava sujeito a governos que viam com simpatia essas reformas de direita. Esse modelo correspondia a um certo ideal que permitiu a constituição de um bloco político em torno dele. Havia um problema real nas estradas que estavam mal cuidadas. A modelagem em torno da qual ele foi articulado reunia a defesa do Estado mínimo, do Estado ausente e o uso de recursos públicos para garantir a continuidade do pagamento da dívida. Além disso, dava a oportunidade de, em torno de grandes negócios, articular grandes empresas simpatizantes dessa posição política. O modelo foi gestado a partir dessa visão.
Tarso: “Aqui os pedágios são caros, as cidades foram cercadas por polos, os serviços são medíocres e as empresas que fecharam esses contratos têm lucros extraordinários” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

 
Há uma certa tendência, nos agrupamentos não neoliberais ou de esquerda, de focar esse tema a partir da crítica às empresas. Na minha opinião, essa é uma visão equivocada. As empresas aderem a contratos. Para entender essa modelagem contratual dos pedágios, nós devemos olhar que forças políticas dominavam o Estado naquela oportunidade e a que interesses essas forças políticas se reportavam naquele momento. Os contratos gerados naquele contexto resultaram em uma tarifa cara, em serviços medíocres (não ocorreu duplicação das estradas) e constituíram verdadeiros polos de cerco, como o polo de Farroupilha que geraram e ainda geram um descontentamento enorme em toda a sociedade.
“O modelo de pedágios atual é resultado de uma crise financeira dos estados, particularmente dos Estados de Bem-Estar”
Sul21:Um dos argumentos dos defensores do atual modelo de pedágios consiste em afirmar que o Estado não possui recursos para investir e garantir estradas de boa qualidade. Qual a sua resposta a este tipo de argumento?
Tarso Genro: Na verdade, o modelo de pedágios é resultado de uma crise financeira dos estados, particularmente dos estados de Bem-Estar que esvaziaram os seus cofres organizando um modelo de socialdemocracia sem fundos. Esses estados foram se endividando progressivamente. O que esse modelo de pedágios substitui é um aumento de impostos que deveria ter ocorrido para permitir que o Estado fizesse obras de duplicação e qualificação das estradas. Como isso ia contra a dogmática neoliberal que prega a redução de impostos e, contraditoriamente, cobra serviços de qualidade do Estado, optou-se pelo atual modelo de pedagiamento. O modelo de pedagiamento, nos países desenvolvidos, inicialmente incide sobre comunidades que, naquela época, tinham salários bastante satisfatórios. A população, ao invés de pagar um imposto maior, passou a pagar os pedágios.
Em países como o nosso, buscou-se esvaziar as funções públicas do Estado e cobrar tarifas de pedágio do conjunto da população que tem, em geral, salários baixos. Esse negócio foi oferecido à iniciativa privada como uma nova fronteira de acumulação de recursos. Isso foi feito também aqui no Rio Grande do Sul naquela oportunidade.
Se compararmos, por exemplo, o pedagiamento das estradas europeias e a qualidade dessas estradas, veremos que os resultados são muito diferentes daqueles que conhecemos. Aqui os pedágios são caros, as cidades foram cercadas por polos, os serviços são medíocres e as empresas que fecharam esses contratos têm lucros extraordinários. Então, uma empresa pública, na nossa opinião, pode baixar os pedágios de maneira significativa e prestar um serviço, no mínimo com a mesma qualidade, e até melhor do que o que é prestado atualmente, reduzindo a pressão sobre o bolso da população e das empresas transportadoras que acabam transferindo o valor desses pedágios para os seus custos.
Temos fortíssimos investimentos da União em estradas que não serão pedagiadas e, se forem, será apenas para sua manutenção”
Sobre o tema dos investimentos, o Brasil há muito tempo não tinha capacidade de investir. Está tendo agora. E esses investimentos que a infraestrutura brasileira precisa tanto podem sair de pedágios bem administrados como de uma relação do Estado com a União como está ocorrendo aqui no Rio Grande do Sul. Temos fortíssimos investimentos da União em estradas que não serão pedagiadas e, se forem, será apenas para sua manutenção. Portanto, um pedágio muito barato que não será criado para repor o custo da obra como ocorre em pedágios que tem como destinação a construção de estradas.
Neste momento, estamos estudando a possibilidade de uma parceria público-privada na RS-10, com um grande retorno para a população da Região Metropolitana, pois ela vai se tornar, na verdade, em uma grande avenida metropolitana. Esse é um investimento que nós não temos condições de realizar. Agora, um acordo como esse precisa ser muito bem estudado. O que não podemos ter é um sistema de pedagiamento que redunde, como no caso atual, no favorecimento exclusivo do polo privado e não do interesse público.
“Neste momento, estamos estudando a possibilidade de uma parceria público-privada na RS-010″, afirma governador do RS | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
S
ul21: Ao propor essa mudança de modelo, o Rio Grande do Sul parece estar adotando uma iniciativa singular no país. Há algum outro estado, hoje, que está fazendo um movimento similar a este?
Tarso Genro: Nos moldes em que estamos fazendo, não. Temos alguns princípios que estão sendo obedecidos no modelo que estamos construindo que têm irritado sobremaneira aqueles que bolaram o sistema de pedágio atual. Quais são as suas características? Uma pequena empresa pública em termos de pessoal e de custo operacional, que não cria um gigantismo estatal que depois não possa ser mantido. Em segundo lugar, vamos adotar um mecanismo de discussão com a comunidade, envolvendo inclusive a técnica de preço. Vamos discutir com a população das regiões com pedágio e estabelecer critérios, inclusive para a fixação das tarifas e sua atualização. Isso pode ser feito com questionamentos do tipo: a comunidade quer que essa estrada seja duplicada em quanto tempo? Em dez anos? Então, temos condições de oferecer esse preço de tarifa e a população poderá verificar por onde o dinheiro entra e para onde vai. Nós teremos um controle público sobre o movimento financeiro da EGR (Empresa Gaúcha de Rodovias) e esse dinheiro não será misturado com dinheiro do Tesouro.
“Vamos rebaixar os preços dos pedágios dos automóveis e rebaixar ainda mais os pedágios dos caminhões de carga”
 
Sul21: A posição das comunidades influenciará efetivamente a definição dessas questões? Como isso ocorrerá?
Tarso Genro: Sim, será levada em consideração. É claro que a técnica de preços para o pedágio tem que ser discutida a partir de dados que a gente ofereça para a comunidade verificar se estão corretos. Um terceiro aspecto importante é que vamos rebaixar os preços dos pedágios dos automóveis e rebaixar ainda mais os pedágios dos caminhões de carga. Esse é um ônus que é pago hoje pela população de uma maneira surda e que não é levado em consideração pelo modelo atual. Há custos de mercadorias, hoje, que são onerados por pedágios extremamente caros. Reduzindo as tarifas poderemos ter, automaticamente, uma interferência sobre a formação desses preços. Em quarto lugar, vamos construir um sistema de pedágios comunitários cujo funcionamento estará sob o controle das populações envolvidas.
 
Sul21: As empresas concessionárias apontam a existência de passivos e prejuízos que deveriam ser pagos pelo Estado e anunciam uma longa batalha judicial. O governo avalia que terá que enfrentar uma longa disputa neste campo?
Tarso Genro: Cabe lembrar que esses pedágios foram montados numa época de juros altos, de ausência de recursos, inclusive da União, para investimentos, e de inflação alta. Esses fatores determinaram uma técnica de formação de preço que está completamente desatualizada e que gerou, na nossa opinião, lucros exorbitantes para as empresas. Então, nestas ações judiciais, vamos cotejar a natureza desses contratos para verificar inclusive a relação entre direitos e deveres. Nós fizemos um levantamento para ver se as empresas estavam cumprindo suas obrigações contratuais. Além de não duplicarem estradas, porque isso não estava previsto nos contratos, os serviços prestados não estão adequados às exigências com as quais se comprometeram. Então, será uma longa batalha judicial. O que estará em jogo nesta batalha, na verdade, não será apenas o aspecto jurídico das contratações feitas, mas também o conteúdo dos contratos firmados e a verificação se esses contratos foram feitos segundo o interesse público e se esse interesse prevalece hoje. Nós achamos que não prevalece. É possível que essas ações apontem para a existência de lucros exorbitantes, o que não permitiria a correção das tarifas e não justificaria o pedido de reparações.
Tarso Genro prevê longa batalha judicial com concessionárias de rodovias | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
 
Sul21: A decisão do governo de mudar o modelo de pedagiamento parece ter um grande apoio da população. No entanto, na maioria dos meios de comunicação, essa simpatia não aparece. A que se deve, na sua opinião, essa disparidade de posições?
Tarso Genro: Há uma profissão de fé, em boa parte dos meios de comunicação, no receituário neoliberal. Há uma dogmática sobre as funções públicas do Estado, montada nas décadas de 80 e 90, que ainda permanece em certos meios de comunicação. Isso está retratado inclusive no próprio modelo de desenvolvimento que essa mídia propôs para o Estado, processo este que está caracterizado em dois grandes momentos. O primeiro foi a instalação da GM, retratada como um grande acontecimento, e o segundo foi quando a Ford foi embora, no governo Olívio Dutra. Eu lembro desses episódios porque eles têm a ver diretamente com a questão das funções públicas do Estado.
“Nas décadas de 80 e 90, uma certa mídia procurou forjar uma ideia na sociedade de que o PT e a esquerda eram contra empresas multinacionais, o que é uma grande bobagem”
Naquela oportunidade foi forjada uma ideia na sociedade de que o PT e a esquerda eram contra a vinda de empresas multinacionais, o que é uma grande bobagem. Só quem não tem empresas multinacionais hoje é a Coreia do Norte. Os outros países todos têm. Vivemos um processo de internacionalização da economia onde as grandes empresas locais e globais se integram hoje no mesmo circuito de relações comerciais. Isso é uma decorrência da própria evolução da sociedade capitalista o que, aliás, foi previsto por Marx no velho Manifesto Comunista. Quem não se deu ao trabalho de ler o Manifesto, poderia dar uma olhada nisso. A internacionalização galopante da economia é uma das características da universalização do capitalismo e da luta pela universalização dos direitos também.
Então, a visão transmitida por essa mídia afirmava que todo processo de desenvolvimento local tinha que depender dos processos de privatização do Estado, como se não houvesse empresas privadas incompetentes e como se a incompetência estivesse apenas do lado do Estado. Essas ideias forjaram um modelo de desenvolvimento no Rio Grande do Sul. Todas as empresas que jogaram sua sorte neste modelo, estão hoje em crise. Uma grande empresa como a GM, por exemplo, muda de fornecedor como quem muda de gravata. Ela muda o modelo de seu carro e muda de fornecedores. Isso pode gerar uma crise na economia local, que é dependente, associada e subordinada e não meramente dependente associada como são todas as grandes empresas hoje no mundo.
“Na medida que você discute o preço dos pedágios com a comunidade e retira esse debate da visão exclusivamente tecnicista, transformando-o também em um tema de uma política cidadã” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
 
Nós invertemos esse modelo. Nós não queremos apenas grandes empresas do país e do exterior, sejam montadoras ou não. Segundo o nosso entendimento, os mecanismos que tem previsibilidade, permanência e capacidade de manejo pelo capital local e pelo Estado são aqueles que vêm de baixo para cima. Vou dar um exemplo concreto. Você faz um programa como o Mais Água, Mais Alimento. As empresas que fabricam pivôs duplicam a sua produção e o seu número de empregos. Quando o Estado faz encomendas para a iniciativa privada através de políticas públicas de interesse social, isso gera uma dinâmica no capital que vai corresponder a uma necessidade regional. Isso está sob o nosso controle. Agora, as encomendas da GM não estão sob o nosso controle e nem as de nenhuma empresa multinacional que, quando se instala aqui, gera determinados efeitos.
 
Sul21: Em que sentido o debate sobre os pedágios se insere neste debate mais amplo sobre o desenvolvimento do Estado?
Tarso Genro: O novo sistema de pedágios também corresponde a essa mudança de padrão. A medida que você discute o preço dos pedágios com a comunidade e retira esse debate da visão exclusivamente tecnicista, transformando-o também em um tema de uma política cidadã, você estabelece uma corresponsabilidade com a comunidade sobre os efeitos dessa política. E estabelece também um compromisso de informação.
Esse fenômeno que ocorreu aqui no Rio Grande do Sul em torno dos pedágios é, na verdade, um fenômeno político, pois engendrou um bloco de poder no Estado. Não foi por acaso que, dois anos antes de encerrar o seu mandato, a governadora Yeda queria prorrogar os contratos. Por que ela queria prorrogar? Será que era uma visão de interesse público que estava predominando? Na nossa opinião, não. Era uma certa antevisão de que seu governo, seu modelo, estava se esgotando, e queria garantir a permanência dos negócios envolvidos naquele processo. Não estou, aqui, falando de má fé. Estou falando, objetivamente, de visão de desenvolvimento e de visão política.
A criação da EGR pelo nosso governo não é uma birra, mas uma concepção de mundo e uma concepção de Estado. Nós vamos demonstrar com a EGR que, com um custo menor para o cidadão, será possível prestar um serviço melhor. Essa é a grande resposta que se deve dar na minha opinião nesta disputa que existe entre privatização do Estado e cumprimento das funções públicas do Estado. Um exemplo elementar: hoje nós entregamos 24 tratores para escolas técnicas do Rio Grande do Sul. Você sabe há quanto tempo não eram entregues tratores para escolas técnicas no Estado? Vinte anos! Por quê? Isso é uma visão de mundo, uma visão de política e uma visão do sistema educacional.
“Empresários que eram íntimos, ou ainda são, de uma ideologia e de uma prática de gestão que levou Yeda Crusius ao governo, eles não gostam de nós. Eles não nos suportam” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
 
Esse bloco de mudanças que estamos fazendo aqui no Estado, que passa pela educação, pelos 12% para a saúde e pela natureza do desenvolvimento altera toda aquela visão medíocre que presidiu o Estado durante muito tempo e que não teve acolhida no governo Olívio Dutra. O que essa visão medíocre dizia: o Estado compõe a sua agenda a partir do grande capital global que diz o que devemos fazer. A nossa visão é o contrário desta. O Estado compõe a sua agenda a partir de uma visão do interesse público da maioria da sociedade, do sentido comum do povo, abrigado nas forças econômicas empresariais e sociais que querem um modelo que receba a globalização, colocando seus efeitos sob controle público.
 
Sul21: Considerando esse movimento de retomada do controle público de vários setores da vida econômica e do próprio Estado e de envolver a população no debate sobre o desenvolvimento, é possível perceber, no meio empresarial, uma mudança de mentalidade que aponte para essa direção?
Tarso Genro: Sim. Isso já é nítido. Quando damos um exemplo aos empresários do que significa, do ponto de vista prático e do ponto de vista de ação pública, o que chamamos de desenvolvimento de baixo para cima, grande parte deles entende e se associa a nossa opinião. Na segunda-feira (4), por exemplo, lançamos uma política para o leite aqui no Estado que visa dar maior rentabilidade para o setor e supõe uma demanda de 40 mil refrigeradores de leite de um modelo especial para a indústria metal-mecânica do Rio Grande do Sul. Essa demanda gera emprego, desenvolvimento, mobilização no interior entre pequenas e médias empresas que fabricam esses refrigeradores. Os empresários que estão envolvidos com essa política, que recebem financiamento do Badesul, do Banrisul ou do BRDE, passam a compreender a diferença entre um modelo e outro.
Por outro lado, há uma resistência em certos setores empresariais que é de natureza ideológica. Aqueles empresários, por exemplo, que eram íntimos, ou ainda são, de uma ideologia e de uma prática de gestão que levou Yeda Crusius ao governo, eles não gostam de nós. Eles não nos suportam. Na visão deles, o fato do Estado estabelecer uma relação com classes sociais que não são controláveis pelas suas decisões políticas é uma coisa que os enfraquece. O que nós oferecemos é um espaço público para o debate. Uma parte dos empresários, normalmente, quando se reporta ao Estado é para pedir redução de impostos, melhoria de serviços e mais investimentos, o que é uma contradição. Essa é uma visão tradicional e curta de grande parte do empresariado.
No debate sobre esse tema, fazemos algumas observações: está bem, eu reduzo o ICMS de vocês por um certo tempo, vamos ver como vai reagir a cadeia produtiva para ver se isso vale a pena para o Estado. Ou então vocês me dizem, se eu reduzir uma parte dessa alíquota para onde que eu a jogo. Eu não posso baixar a minha arrecadação. Não há nenhum setor que possa contribuir com mais um pouquinho? Quando dizemos isso, nunca ninguém oferece uma alternativa. Há uma grande solidariedade de classe entre eles, o que é até natural. Mas quando colocamos essa questão estão abrindo um debate sobre o interesse público, que tem que ser mediado ou às vezes até mesmo confrontado com o interesse privado imediato.
“O que ainda existe no Estado hoje é uma velha hegemonia cultural e política que teve seu auge no enlace econômico, político e social originado desse sistema de pedagiamento” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
 
A nossa visão é trabalhar com todas essas políticas públicas para formar um novo bloco social e político aqui no Estado. Um bloco que pode ter suas contradições internas mas que deve ter um amálgama cultural, político e econômico portador de um compromisso com um modelo alternativo em relação ao que ocorreu no governo anterior. Eu não vou me reportar ao governo Rigotto, pois ele não conseguiu resolver as dificuldades de caixa. Ele administrou o Estado com toda boa vontade, mas não conseguiu proporcionar nenhuma mudança no modelo de desenvolvimento nem no modelo de gestão. Digo isso com todo o respeito que tenho pelo Rigotto e pelo esforço que eu sei que ele fez.
“O governo Yeda atrasou o Rio Grande do Sul em todos os setores”
Já o governo da governadora Yeda foi o símbolo do que a maior parte do empresariado gaúcho achava o mais moderno e mais qualificado em termos de gestão para o Estado. Foi um governo que atrasou o Rio Grande do Sul em todos os setores, na educação, na saúde, na segurança e no desenvolvimento econômico. Mesmo assim, uma grande parte dessas pessoas ainda tem saudade do governo Yeda, talvez pelo tipo de interferência que tinham nas decisões do governo, que hoje não têm mais. Hoje, quem quer ter interferência no governo tem que legitimar sua opinião na cena pública, por exemplo no Conselhão. E essa política que tem que ser discutida em todos os setores da sociedade que estão ali representados.
O que ainda existe no Estado hoje é uma velha hegemonia cultural e política que teve seu auge no enlace econômico, político e social originado desse sistema de pedagiamento. Há uma disputa com um novo modelo que, ironicamente, também tem na questão dos pedágios um elemento muito importante. Na verdade, o que está em jogo vai além da questão dos pedágios em si. Trata-se, fundamentalmente, do tipo de relação entre Estado e sociedade que interessa à maioria da população e não apenas a determinados grupos econômicos.
 
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Chávez e a fita métrica do conservadorismo

Quando mede o tempo histórico na América Latina, a régua conservadora irradia uma ambiguidade sugestiva.

Nas medidas à esquerda, identifica extensões anacrônicas de um tempo morto. Fantasmas de um mundo que na sua métrica não existe mais.

Exceto como detrito histórico.

Entre os fenômenos jurássicos estariam lideranças, a exemplo da exercida pelo falecido presidente Chávez – pranteado agora em massa por um povo a quem favoreceu um primeiro degrau de cidadania e dignidade.

Enquadram-se nas mesmas polegadas da régua arestosa Lula, Evo Morales, Correa, Cristina, Mujica e, mais recentemente, Dilma.

A mídia dominante ecoa a régua discricionária, estendendo seu preconceito às políticas de emancipação social implementadas por esses governantes.

Sintomaticamente, não adota o mesmo peso e medida quando se trata de dimensionar a natureza dos graves constrangimentos estruturais, acumulados em séculos de hegemonia conservadora na região.

Mencione-se os mais óbvios.

Uma distribuição de renda iníqua; serviços públicos indignos; concentração patrimonial monárquica; estruturas produtivas imiscíveis com demanda popular; dependência colonial asfixiante.Uma elite empresarial cuja única pátria é o lucro e a capital, Miami.

A dualidade conduz a desdobramentos singulares.

Como explicar a aderência popular de líderes e projetos que, a julgar pela narrativa dominante, levitam em sociedades intrinsecamente modernas, distorcidas apenas pela anacrônica presença de demagogos ?

Oxímoros como 'autoritarismo democrático' tem sido cunhados pelo jornalismo conservador.

É notável o esforço para harmonizar o inenarrável.

As veias abertas de uma América Latina que, quanto mais moderna aos olhos da elite, mais sangra pelo cotidiano de seu povo.

Um caso exclamativo é o da reforma agrária.

'Verbete incluído no arquivo morto da história em todo o mundo', sentencia o padrão métrico dominante.

Como tal, uma discussão sequer admitida fora do carimbo ideológico que a sepultou.

Todavia, mais de 50% dos 870 milhões de famintos existentes no mundo vivem onde menos se espera que a fome possa dar as cartas: junto à terra.

Não apenas isso.

Quatrocentos milhões de pequenos proprietários rurais do planeta tem área insuficiente para a própria sobrevivência.

Menos de dois hectares, em mpedia, calcinados pela aridez tecnológica.

Contam apenas com a força de seus braços para enfrentar , e perder, cotidianamente, a luta contra a miséria.

Os maiores bolsões de fome e de pobreza do globo estão no campo, que ainda abriga 49% da humanidade.

A metade da pobreza latino-americana vive aí.

A metade da pobreza brasileira está no Nordeste e a metade dos nordestinos mais pobres habita a área rural.

Há dezenas de milhares de famílias paupérrimas listadas no MST, dispostas a tentar um recomeço junto à terra.

O Brasil tem menos de 20% de sua demografia misturada ao espaço da agropecuária.

Mas somados os habitantes de 1.800 pequenos municípios cuja orbita gravita no entorno da terra, nunca tantos brasileiros viveram no mundo rural.

Formam hoje um contingente quase equivalente a uma Argentina.

Lateja a percepção de que algo precisa mudar na estrutura agrária do país e do mundo para que a luta contra a fome e a pobreza possa acelerar o passo.

É mais que velocidade.

Está em jogo percorrer uma travessia estrutural que o presente deve às mazelas do passado trazidas ao século 21.

Diante do complexo emaranhado de tempos históricos e desafios sociais, fica difícil dissociar o tom do editorial do Globo desta 3ª feira, sobre o 'anacronismo da reforma agrária', de um mero rompante de classe.

A que fez 1964.

Com o título 'A comprovada falência da reforma agrária', o diário da família Marinho capturou a seu favor a autocrítica do governo.

A gestão Dilma, que beneficiou o menor número de assentados desde 2003, reconheceu a indigência a que estão relegados boa parte dos assentamentos no país. A presidenta se comprometeu com a Contag, esta semana, a retificar esse percurso e a sua velocidade.

Foi a deixa. O Globo disparou a conclusão prevalecente em sua régua histórica.

A reforma agrária sempre figurou assim no Brasil.

Como uma das pendências históricas mais indigestas ao estômago conservador.

Há 49 anos, no dia 31 de março, foi uma das agulhas mais operosas em cerzir o golpe militar.

Por mais de duas décadas, ele calaria a necessária discussão democrática das reformas de base, focadas no legado asfixiante do conservadorismo ao desenvolvimento brasileiro.

Entre elas, a estrutura de propriedade da terra.

Na ótica dos interesses que, já àquela altura, atribuíam o epíteto de 'demagogo e populista' aos que empunhavam essa bandeira, o debate reprimido caducou.

Com a palavra, 'O Globo' desta terça-feira, 5/02/2013:

"36% das 945.405 famílias assentadas (ou 339.945) sobrevivem do Bolsa Família, por terem renda abaixo do limite divisor da miséria".

"Não se realizou o sonho da redenção social por meio da divisão de terras. Foram distribuídos 87 milhões de hectares, 10,8% do território nacional, e, mesmo assim, metade dos assentados não sobrevive sem a ajuda assistencialista do Estado".

"Diante deste quadro, o governo age de maneira sensata ao dar prioridade à tentativa de corrigir os assentamentos existentes em vez de instalar outros".

"Espera-se que, num segundo momento, o governo se convença de que a modernização da agricultura e a própria urbanização do país jogaram na lata de lixo da História a reforma agrária, tema de meados do século passado, de um Brasil muito diferente do de hoje".

A síntese feita pelo editorial conservador é ardilosa.

Estampa a fotografia realista de um resgate de náufragos.

Acompanhada da legenda torpe.

Nela, os responsáveis pelo transatlântico afundado atribuem o desastre ao predomínio de feridos, fracos e desfalecidos entre os passageiros.

Tem sido um pouco essa a tônica do jornalismo dominante ao tratar da ressurgência de agendas e demandas incompatíveis com a métrica da modernidade capitalista na América Latina.

A ênfase nas dificuldades – reais – da reforma agrária tardia, perseguida em nosso tempo, evoca a pergunta do poema de Drummond diante da pele estendida no chão:

'O que sei do tapir senão a sua derrota?'

A ditadura brasileira sustentada por veículos que hoje destinam a reforma agrária ao lixo da história promoveu uma das diásporas rurais mais fulminantes do século 20.

Aquilo que se convencionou chamar de 'modernização conservadora do campo' cometeu no Brasil, no espaço pouco superior a duas décadas, uma transição rural/urbana que países como os EUA demandaram um século para completar.

Mais de 30 milhões de pobres do campo foram empurrados para periferias conflagradas das grandes metrópoles, entre os anos 60 e 80. Um exército de reserva pronto para o uso e o abuso do 'Brasil Grande' verde oliva.

Cinturões urbanos sem cidadania explodiram por todo país.

A grande produção capitalizada, mecanizada e subsidiada --em níveis de deixar corado o orçamento atual da reforma agrária e da agricutura familiar-- deu conta de suprir a demanda interna por alimentos. Fez do Brasil um dos maiores exportadores agrícolas do mundo.

A um custo nem sempre relacionado.

Uma contrapartida de fome urbana e rural espraiou-se durante décadas; só mitigada com a extensão do Bolsa Família a mais de 50 milhões de brasileiros na atualidade.

Não por acaso o PT chegou ao governo, em 2003, com a bandeira do Fome Zero.

Execrada, recorde-se, pelo jornalismo dominante.

Ainda hoje, ventríloquos resistem em admitir a existência da fome no país.

Talvez por ser um dos produtos mais representativos do capitalismo agalopado que ajudaram a implantar a partir de 64.

Por certo, a reforma agrária adequada ao século 21 ainda não foi decifrada pelas forças e lideranças progressistas que se debruçam sobre o tema.

Reside aqui, talvez,uma das suas grandes fragilidades.

Hesita-se em admitir a necessidade de um aggiornamento na forma e no conteúdo dessa agenda em nosso tempo.

Uma das chaves da atualização certamente passa pelo tema ambiental.

O governo ensaiou a resposta nessa direção com os projetos de assentamentos agroflorestais.

Mas sem atribuir-lhes a centralidade de uma diretriz estratégica.

A questão agrária e a urgência climática têm sido uniformemente negligenciadas, ademais, no debate estratégico da frente progressista que apoia o governo, dentro e fora do PT.

Talvez não seja um mero acaso.

Talvez sejam agendas gêmeas, indecifráveis em separado no mundo atual.

Uma, remanescente do século 19; a outra, contemporânea da exacerbação capitalista em nossos dias.

Juntas, entre outras, justificam a presença vigorosa de lideranças progressistas, e de processos revolucionários, que não cabem na fita métrica conservadora.

Mas que assumem o desafio de arrastar tempos históricos distintos, na luta por uma emancipação social e econômica ontologicamente incompatível com a métrica conservadora na América Latina.

Postado por Saul Leblon no Blog das Frases

terça-feira, 5 de março de 2013

Inquestionável verdade

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Chávez, lider bolivariano, um mito

Comunicação: avançar sem mexer na Constituição?

O PT não tem maioria parlamentar e o PMDB tem força para travar o governo. Assim, é preciso pensar muito antes de lançar manifestos que, se não tiverem boa pontaria, podem dar a impressão de ruptura do movimento de democratização da mídia com o governo. Vejam o exemplo argentino.

sábado, 2 de março de 2013

Candidatura e aventura

Campos, Aécio, Gabeira, Marina. Os riscos da guinada à direita. Fotos: Dida Sampaio/ Estadão Conteúdo, José Cruz e Rodrigues Pozzebom/ ABr e Leonardo Soares/ Estadão Conteúdo
Campos, Aécio, Gabeira, Marina.
Os riscos da guinada à direita.
Fotos: Dida Sampaio/ Estadão Conteúdo
, José Cruz e Rodrigues Pozzebom/ ABr e
 Leonardo Soares/ Estadão Conteúdo
O governador pernambucano Eduardo Campos (PSB) tem o direito e o caminho aberto para disputar a Presidência da República, em 2014. Tem, também, um partido em fase de crescimento, tem pressões internas e externas para romper, apoio da mídia para se projetar, simpatia de empresários preocupados com o PT, de políticos órfãos, e uma relação de conflitos com o governo capaz de produzir a crise necessária para explicar o rompimento com a candidatura à reeleição da presidenta Dilma Rousseff.
 
Campos, no entanto, hesita. Está tomado por dúvidas pessoais e políticas. Negaceia. Faz que vai, mas até agora não foi, e assim se expõe às ironias como, por exemplo, a do senador Aécio Neves, virtual presidenciável do PSDB, para quem Eduardo Campos precisa de um divã para saber se é de oposição ou governista.
 
Nesse momento, ele tornou-se um exemplo que permite perceber a diferença entre uma aventura eleitoral e uma candidatura efetiva, vigorosa, possível de ser vitoriosa. No primeiro caso, o caminho é largo, mas ilusório. No outro, a passagem é estreita e com possibilidades de consequências danosas. Talvez irreversíveis.
 
Eduardo Campos, 47 anos, neto de Miguel Arraes, tem o sangue do avô nas veias, mas não tem o mesmo compromisso político. É uma “cara nova” atrás da qual todos andam, em nome de suspeita renovação. Ele tem uma expectativa natural de superar Arraes, político dos anos 1960, com liderança nacional e eleitorado restrito a Pernambuco. Esse é o dilema que persegue Campos. Seria a hora de romper com essa amarra? As circunstâncias não são favoráveis.
 
Campos terá de juntar-se à estratégia da oposição de tradição conservadora para derrotar um governo de natureza progressista e rachar o partido.
 
Como candidato, integrará o “mutirão de candidatos” possíveis na tentativa de levar a eleição para o segundo turno. Neste caso, a candidatura dele se somaria à de Aécio Neves (PSDB), Fernando Gabeira (PV), Marina Silva (sem partido formalizado) e o candidato do PSOL, cujo objetivo é marcar posição.
 
Nas últimas semanas, o governador de Pernambuco tem feito críticas a alguns pontos da administração de Dilma. Marca posição e pode se valer dela para, eventualmente, explicar no futuro o afastamento de um governo que apoiou e elogiou ao longo do tempo. O PT vestiu essa “saia-justa” na campanha para a eleição municipal de 2012, em Belo Horizonte.
 
Há informações de que alguns empresários estariam dispostos a “oxigenar” a campanha de Campos. Os recursos são importantes. Mas onde ele arranjaria espaço-tempo suficiente para montar um bom programa no horário eleitoral? O PSB tem 1 minuto e 40 segundos. Aliança? Só com partidos nanicos, que dispõem de 20 segundos ou pouco mais?
 
Em 2010, Dilma, com nove aliados, contou com 10 minutos. O tucano José Serra, com cinco aliados, obteve pouco mais de 7 minutos. Houve cinco candidatos dos nanicos, afora Marina, do PV, que viraram fenômeno e arrastaram quase 20 milhões de votos. Campos fará acordo com uma oposição sem programa?
 
Por enquanto, à direita, só há esperança. Ela espera o aumento da inflação, da taxa de juros, do desemprego, da inadimplência, da falta de investimentos e, por consequência, de um crescimento medíocre do País. Sem esse cenário, em 2014, as chances de qualquer opositor a Dilma são nulas. Isso mostra que no fundo do peito de cada candidato da oposição o coração bate em tom sinistro: quanto melhor pior.
 
Mauricio Dias na Carta Capital