sexta-feira, 3 de julho de 2015

Contra o totalitarismo financeiro, ou a Europa muda ou morre


Nunca vimos um credor, por mais estúpido que fosse, tentar matar o próprio devedor, como o FMI faz com os gregos.









"A economia que mata", a que se refere o Papa, é o que estamos assistindo ao vivo, direto de Bruxelas. É um espetáculo humilhante. Não corta pescoços, não cheira a sangue, a pólvora ou carne queimada. Atua em salas refrigeradas e corredores acarpetados, mas a ferocidade sem pudor é a mesma de uma guerra. A pior das guerras: aquela declarada pelos ricos da globalização aos pobres dos países mais vulneráveis. Eis em que consiste a influente metafísica dos dirigentes da União Europeia, do BCE e, sobretudo, do FMI: demonstrar, de todas as formas possíveis, que quem está embaixo nunca poderá ser ouvido a respeito das pseudo-receitas fadadas ao fracasso. 

As "negociações sobre a Grécia" das últimas semanas já tinham passado dos limites de uma confrontação diplomática, certamente difícil, mas normal, e se transformado num teste de resistência. Uma espécie de julgamento divino ao contrário. As etapas anteriores já haviam se desviado do que se entende tradicionalmente por "democracia ocidental", com a insistência dos líderes da União Europeia em substituir o caráter totalmente político do voto grego e do mandato popular confiado a este governo, pela lógica contábil dos lucros e das perdas financeiras, como se não se tratasse de Estados, mas de empresas ou corporações.

Apocalipse cultural

Jürgen Habermas tem razão em denunciar a transformação – por si só devastadora – de um confronto entre representantes do povo, no âmbito de um verdadeiro exercício de cidadania, em um confronto entre credores e devedores, num contexto quase privado de um processo de falência. Descreditar Alexis Tsipras e Yannis Varoufakis enquanto interlocutores políticos para transformá-los em "devedores" já era, por si só, um sinal de apocalipse cultural, por colocá-los numa situação de desigualdade diante de "credores" todo-poderosos. Depois, no entanto, a situação mudou de rumo. Christine Lagarde acelerou o processo de desmascaramento. Não se trata mais apenas de espoliar o outro, mas de humilhá-lo. Não se trata mais só da dialética, inteiramente econômica, "credor- devedor", mas de uma muito mais dramática, "amigo-inimigo", que marca a volta da política em sua forma mais essencial e mais dura: a política do polemos (guerra em grego antigo).

De fato, nunca tínhamos visto um credor, por mais estúpido que fosse, tentar matar o próprio devedor, como o FMI está fazendo com os gregos. Algo mais parece estar em jogo: a construção científica do "inimigo" e a vontade de um sacrifício exemplar

Uma fogueira como nos tempos da Inquisição, de modo a que ninguém mais fique tentado pelo charme da heresia.

Leia com atenção o último documento com as propostas gregas e as correções em vermelho do grupo de Bruxelas, publicado (com uma ponta de sadismo) pelo Wall Street Journal: é um exemplo burocrático de pedagogia da desumanidade.

A caneta vermelha fez estragos ao longo do texto, procurando, com uma precisão maníaca, qualquer referência aos "mais necessitados" (most in the need) para realçá-la, com um traço. A caneta negou a possibilidade de manter uma TVA (imposto sobre consumo) mais baixa (13%) para os produtos alimentares básicos, e a 6% para os medicamentos (!). Assim como, no extremo oposto, riscou qualquer possibilidade de tributar um pouco mais os lucros mais altos (acima de 500 mil euros), em homenagem à teoria sinistra do trickle down, segundo a qual enriquecer os mais ricos beneficia a todos!

A caneta, finalmente, manchou de vermelho o parágrafo sobre as aposentadorias, impondo uma pressão maior, e imediata, sobre uma categoria já massacrada pelos Memorandos de 2010 e 2012.

Tudo isso baseado na falsa ideia, repetida ad nauseam, sobre a idade "escandalosamente baixa" (53, 57 anos...) de aposentadoria para os gregos. Para justificar a gravidade dessas exigências, o diretor de comunicação da Troika, Gerry Rice, numa conferência de imprensa, chegou ao ponto de declarar que "a aposentadoria média, na Grécia, é como na Alemanha, mas se para de trabalhar seis anos antes...".

Uma (dupla) mentira inconsciente, desmentida pelas estatísticas oficiais da União Europeia: a Eurostat aponta, desde 2005, que a idade média de aposentadoria entre os cidadãos gregos é de 61,7 anos (quase um ano a mais que a média europeia, na Alemanha sendo de 61,3 e na Itália, 59,7).

A Eurostat afirma ainda que, em 2012, a despesa grega per capita para o pagamento das aposentadorias representava aproximadamente metade da de países como Áustria e França, e um quarto em comparação com a Alemanha. 

Um país que deu, portanto, tudo o que podia, e muito mais. Por que, então, continuar a pressioná-lo?

Ambrose Evans-Pritchard – um comentarista conservador, mas não cego pelo ódio – escreveu no Telegraph que "os credores querem ver esses rebeldes Klepht (os gregos que, no século 16, se opuseram ao domínio otomano) enforcados nas colunas do Parthenon, como bandidos", pois não suportam ser desmentidos por testemunhas de seu próprio fracasso. Ele acrescentou que "se quisermos marcar o momento em que a ordem liberal perdeu sua autoridade no Atlântico – e o momento em que o projeto europeu deixou de ser uma força histórica capaz de criar motivação – este momento poderia ser este que vivemos hoje". É difícil discordar dele.

Não podemos esconder que o que está em jogo na Europa hoje, no que diz respeito à Grécia e aos imigrantes, marca uma mudança de cenário para todos nós.

Será cada vez mais difícil, a partir de agora, nutrir qualquer orgulho de ser europeu. O que prevalecerá, se "permanecermos humanos", será a vergonha. 

Uma ideologia exclusiva 

Se, como todos esperamos, Tsipras e Varoufakis conseguirem salvar a pele do seu próprio país, recusando o que equivale a um golpe de estado financeiro, isto será de extraordinária importância para todos nós.

Mas, de qualquer maneira, o que restará é a imagem indelével de um poder e um paradigma com o qual será cada vez mais difícil conviver. Porque está doente de totalitarismo financeiro que não tolera qualquer opinião divergente, sob o risco de arruinar a Europa, pois está claro que com estas lideranças, com esta ideologia exclusiva, e com essas instituições cada vez mais fechadas à democracia, a Europa não pode sobreviver.

Uma coisa está bem clara, agora mais do que nunca: ou a Europa muda, ou morre.

A Grécia não pode se salvar sozinha. Ela pode suportar outro round, mas se outros povos e outros governos não ficarem do seu lado, a esperança que despertou morrerá sufocada.

Por isso as eleições do fim do ano, na Espanha e em Portugal, são tão importantes.

Por isso é tão importante o processo de reconstrução de uma esquerda italiana que esteja à altura destes desafios; é preciso superar as fragmentações e os particularismos, as incertezas e as distinções para construir, rapidamente, uma verdadeira casa comum, grande e confiável.

Marco Revelli - Libération

Tradução de Clarisse Meireles

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domingo, 14 de junho de 2015

Contra o capitalismo global, a "ideia comunista"


Filósofos como Alain Badiou, Slavoj Zizek e Daniel Bensaid veem no comunismo o único horizonte contra a predação e a privatização do mundo.







Para alguns, defender o comunismo hoje é um anacronismo. 

Alinhar-se a Karl Marx mesmo na civilizada França do século XXI pode ser arriscado. O filósofo Alain Badiou foi alvo de críticas que o viam como um "perigoso revolucionário" e até mesmo "defensor do regime de Terror", aquele que tomou conta da Revolução francesa e do comunismo stalinista. Seus detratores eram alguns dos chamados "novos filósofos", surgirdos na década de 70, que com o passar do tempo se tornaram anticomunistas intransigentes. 

"O capitalismo global humanizado não pode ser o horizonte final da esquerda”, se insurge o filósofo e psicanalista Slavoj Zizek, para quem é preciso reabilitar a “ideia comunista”, não como algo que já fracassou mas como um universalismo a ser construído.

"Estou convencido que numerosos problemas como os ecológicos, biogenéticos e novas formas de apartheid não podem ser resolvidos pelo capitalismo global", esclarece Zizek, que organizou com Alain Badiou em 2009, em Londres, um colóquio chamado On the idea of communism, que se repetiu em Berlim, em 2010.

O comunismo, o futuro do Homem
Para defender Alain Badiou dos ataques dos "novos filósofos" Zizek e Fabien Barby escreveram, em março de 2010, um manifesto ao qual se juntaram centenas de filósofos e intelectuais do mundo inteiro. O texto do manifesto dizia claramente: "nós não renunciaremos jamais à ideia do comunismo". 

E continuava: "Por mais problemática que seja essa ideia, por mais nova que pareça sua forma de se tornar realidade, por mais críticos que sejamos sobre a história do comunismo no século passado, por mais diferentes que sejam nossas propostas, uma coisa é certa : um comunismo a ser reinventado, de um novo gênero ainda indefinido, é o único futuro do Homem. Porque esta é a eterna e única verdade política. A única justiça que a razão humana pode conceber de forma sadia". 

O manifesto concluía: "O tempo não é mais, queiram ou não, dos fracos, pretensiosos e arrivistas ’novos filósofos’ mas dos filósofos da renovação". 

Filósofos contemporâneos como Etienne Balibar, a exemplo de Badiou e Zizek, acham que Marx deve ser o contraponto do capitalismo atual. A mesma coisa pensava o filósofo Daniel Bensaïd, morto em 2010, em Paris.

O que os une é uma certeza: Karl Marx continua a ser um filósofo fundamental. Eles se debruçaram sobre os escritos de Marx e defenderam em livros e conferências a pertinência de seu pensamento e da idéia do comunismo, que Badiou chama de "hipótese comunista". 

Provocativo e dotado de um senso de humor inabalável, Zizek declarou a um jornal francês: "Continuo comunista porque todo mundo pode ser socialista, até mesmo Bill Gates". 

Badiou e Zizek são os dois filósofos europeus mais conhecidos, traduzidos e comentados no mundo. Para Badiou, como para Zizek, "o desatre obscuro" do stalinismo (como o denomina Alain Badiou) e o fracasso do “socialismo real” não invalidam o horizonte de emancipação radical que é a “ideia comunista”, que eles reatualizam em novas formas de ação. Ambos afirmam um universalismo concreto, um universalismo de combate.

Alain Badiou apresentou seu amigo Zizek em 2008 e novamente este ano em seu seminário como alguém que vem de um horizonte filosófico diferente. "O pensamento de Zizek é fruto da tensão entre o idealismo alemão (Kant, Schelling, Hegel) e Lacan. Sua dialética é mais a da negação, numa elaboração que se faz do lado de Hegel e do real, num conceito que ele encontra em Lacan".

Quanto a seu próprio horizonte filosófico, Badiou diz que ele se constituiu na tensão dialética entre a ideia e a liberdade, entre Platão e Sartre tentando uma resposta à pergunta, "como a soberania da ideia, da verdade, pode ser compatível com a liberdade?"

Renovar a vocação igualitária do comunismo
Citado por Etienne Balibar, o filósofo Louis Althusser, seu mestre, dizia que o comunismo estava presente no meio de nós, imperceptível, invisível, nos interstícios da sociedade capitalista, em lugares onde os homens se associam em atividades sem fins lucrativos. 

De passagem por Paris este mês de junho, Zizek foi convidado a falar no seminário que Alain Badiou dá na École Normale Supérieure de Paris, que frequento há alguns anos. Ele estava na capital francesa para o lançamento de seu livro Menos que nada - Hegel e a sombra do materialismo dialético, prefaciado por Badiou, que o considera "um dos mais importantes livros de filosofia lançado nos últimos anos".

Em um livro anterior, Primeiro como tragédia, depois como farsa, Zizek voltava a Hegel, que considerava que a história se repete necessariamente. Karl Marx observou: "uma vez como tragédia e na vez seguinte como farsa". Ao que Herbert Marcuse acrescentou: "a farsa pode ser mais terrível que a tragédia que ela repete". Considerado por muitos como o "filósofo mais perigoso do Ocidente", o agitado Zizek tem como ambição defender a “ideia comunista”, recomeçar do início, "o que significa não reproduzir o que foi um fracasso mas diante dele renovar a vocação igualitária original do comunismo".

Dito isto, é evidente que ele não vê solução no mercado. 

“Se há uma lição a tirar do fracasso da União Soviética é que o dirigismo da economia nacionalista só funciona numa certa etapa de desenvolvimento industrial tradicional. Não tenho uma fórmula clara. Mas a solução que entrevejo é a de um Estado sustentado por um movimento popular, por uma mobilização extraparlamentar”, declarou ele em 2010, em conferência parisiense. Ele citava como digna de grande interesse a experiência de Evo Morales na Bolívia. Para Zizek, Morales conseguiu uma poderosa mobilização da maioria silenciosa indígena. Assim, ele é sustentado por uma mobilização permanente da maioria.

Ainda não havia o Podemos, na Espanha, nem o Syriza, na Grécia, que empolgam o filósofo hoje.

Segundo Zizek, o stalinismo foi algo muito mais enigmático que o nazismo. Por isso ele concorda com Badiou que chamou o período stalinista de "desastre obscuro". Para Zizek, os dois totalitarismos não podem ser comparados por múltiplas razões que explica.

Na conferência que faria no mês em que morreu, em Paris, em janeiro de 2010, Daniel Bensaïd, filósofo e militante trotskista escreveu um longo texto no qual reafirmava sua convicção que o comunismo é único horizonte contra "a predação e a privatização do mundo". 

Ele escreveu: "De todas as formas de nomear 'o outro', o que está em face do obsceno capitalismo, a palavra comunismo é aquela que conserva maior sentido histórico. É ela que melhor evoca o comum que se dá na partilha e na igualdade, a partilha do poder, a solidariedade que se opõe ao cálculo egoísta e à concorrência generalizada, a defesa dos bens comuns da humanidade, naturais e culturais, a extensão de um campo de gratuidade dos serviços e bens de primeira necessidade, contra a predação generalizada e a privatização do mundo". 


Por Leneide Duarte - Plon, de Paris na Carta Maior 

Créditos da foto: esquerda.net

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O caos ideológico


A grande confusão ideológica do país é causada pelas próprias forças progressistas e o governo que acabou de ser eleito por uma coalizão de centro-esquerda.



Em meio à crise política e à retração econômica brasileira, o jantar do dia 12 de maio da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos no Waldorf Astoria de Nova York, reunindo banqueiros, empresários e a políticos da alta cúpula do PSDB, em torno dos ex-presidentes Bill Clinton e Fernando H. Cardoso foi um clarão no meio da confusão ideológica dominante. Em termos estritamente antropológicos, representou uma espécie de pajelança tribal de reafirmação de velhas convicções e alianças que estiveram na origem do próprio partido socialdemocrata brasileiro. Mas do ponto de vista mais amplo, pode se tornar uma baliza de referência para a clarificação e remontagem do mapa político brasileiro.

Afinal, este grupo liderado pelo ex-presidente FHC foi o único que esteve presente e ocupou um lugar de destaque nas reuniões formais e informais que cercaram a posse de Bill Clinton, em 1993, em Washington. Naquele momento foi sacramentada a aliança do PSDB com a facção democrata e o governo liderado pela família Clinton. Uma aliança que se manteve durante os dois mandatos de Clinton e FHC, assegurando o apoio do Brasil à criação da Alca e garantindo a ajuda financeira americana que salvou o governo FHC da falência.


Estes dois grupos estiveram juntos na formulação e sustentação das reformas e políticas do Consenso de Washington e voltaram a estar juntos nas reuniões da “Terceira Via”, criada por Tony Blair e Bill Clinton, em 2008, reencontrando-se agora de novo, na véspera da candidatura presidencial de Hillary Clinton.


Durante todo este tempo os social-democratas brasileiros mantiveram sua defesa incondicional do alinhamento estratégico do Brasil, ao lado dos EUA, dentro e fora da América Latina; sua opção irrestrita pelo livre comércio e pela abertura dos mercados locais; pela redução do papel do Estado na economia; pela defesa da centralidade do capital privado no comando do desenvolvimento brasileiro; e pela aplicação irrestrita das políticas econômicas ortodoxas.


Estas posições orientaram a política interna e a estratégia internacional dos dois governos do PSDB, na década de 90, e seguem orientando a posição atual do PSDB, favorável à reabertura de negociações para criação da Alca; à mudança do regime de exploração do “pré-sal”; ao fim da exigência de conteúdo nacional nos mercados de serviços e insumos básicos da Petrobras e das grandes construtoras brasileiras. Isto pode não ser “um projeto de país”, mas com certeza é um programa de governo rigorosamente liberal, que só coincide de forma circunstancial e oportunista com as teses neoconservadoras defendidas hoje por movimentos religiosos de forte conteúdo fundamentalista.


A novidade destes movimentos no cenário político brasileiro atual surpreende o observador, mas suas teses sobre família, sexo, religião etc não são originais e sua liderança carece da capacidade de formular e propor um projeto hegemônico para a sociedade brasileira. O mesmo pode ser dito com relação ao poder real das recentes mobilizações de rua e de redes sociais, que fazem muito barulho, mas também não conseguem dar uma formulação intelectual e ideológica consistente às suas próprias iras e reivindicações.


Deste ponto de vista, parece necessário reconhecer que a origem da grande confusão ideológica do país, neste momento, são as próprias forças progressistas e o governo que acabou de ser eleito por uma coalizão de centro-esquerda. Não é fácil identificar o denominador comum que une todas estas forças, mas não há dúvida que seu projeto econômico aponta muito mais para o ideal de um “capitalismo organizado” sob liderança estatal, do que para o modelo anglo-saxônico do “capitalismo desregulado”; para uma política agressiva de redistribuição de renda e prestação gratuita de serviços universais, do que para uma política social de tipo seletiva e assistencialista; e finalmente, para uma estratégia internacional de liderança ativa dentro da América Latina, e de uma aliança multipolar com as potências emergentes sem descartar as velhas potências do sistema, muito mais do que para um alinhamento focado em algum país ou bloco ideológico de países.


Se assim é, como explicar à opinião pública mais ou menos ilustrada que um governo progressista deste tipo coloque no comando de sua política econômica um tecnocrata que não tem apenas convicções e competências ortodoxas, mas que seja também um ideólogo neoliberal que defende abertamente em todos os foros uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo para o país absolutamente idêntica a que é defendida pelo grupo que participou do jantar no Waldorf Astoria, no dia 12 de maio.


E como entender um ministro de Energia que defende em reuniões internacionais o fim da política de “conteúdo local” e do “regime de partilha” do pré-sal, duas políticas que são uma marca dos últimos 13 anos de governo e uma diferença fundamental com a posição defendida pelos mesmos comensais de Nova York.


Por fim, para levar a confusão ao limite do caos, como explicar que o ministro de Assuntos Estratégicos desse mesmo governo proponha abertamente, pela imprensa, como se fosse um acadêmico de férias, que se faça uma revisão completa da política externa brasileira da última década, com a suspensão do Mercosul, que foi criado e é liderado pelo Brasil, e com a mudança do foco e das prioridades estratégicas do país, que deveria agora alinhar-se com os EUA para enfrentar a ameaça da “ascensão econômica e militar chinesa”.


Tudo isto dito de forma tranquila, exatamente uma semana antes da visita oficial do primeiro-ministro chinês ao Brasil, que já havia sido anunciada junto com um pacote de projetos e de recursos para levar a frente uma estratégia de longo prazo que passa – entre outras coisas – pela construção de uma ferrovia transoceânica capaz de dar ao Brasil, finalmente, um acesso direto ao Pacífico, com repercussões óbvias no campo da geopolítica e geoeconomia continental. Além disto, este “grande estratego” do governo fez sua proposta um mês antes da reunião do Brics, na Rússia, em que será criado o banco de investimento conjunto do grupo, sob a óbvia liderança econômica da China. Uma trapalhada pior do que esta, só se fosse proposta também a internacionalização da Amazônia.


Talvez por isto tantos humanistas sonhem hoje com o aparecimento de uma nova utopia de longo prazo, como as que moveram os revolucionários e os grandes reformadores dos séculos XIX e XX. Mas o mais provável é que estas utopias não voltem mais e que o futuro tenha que ser construído a partir do que está aí, a partir da sociedade e das ideias que existem, com imaginação, criatividade e uma imensa paixão pelo futuro do país.




José Luís Fiori, professor titular de economia política internacional da UFRJ, é autor do livro “História, estratégia e desenvolvimento” (2014) da Editora Boitempo, e coordenador do grupo de pesquisa do CNPQ/UFRJ. Escreve mensalmente às quartas-feiras

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Frente de esquerda para quê?



Não é a falta de direção que acomete a ala progressista brasileira. É a falta de coragem, o que é muito mais grave

Dilma transformou-se em uma Isabelita Perón do Cerrado



Se fosse o caso de fornecer uma analogia histórica para a situação atual do Brasil, talvez o melhor a fazer seria voltar os olhos para a Argentina dos anos 1970. De certa forma, não há nada mais parecido com o atual governo Dilma do que a Argentina de Isabelita Perón. Dilma transformou-se em uma Isabelita Perón do Cerrado.

Uma presidenta refém de seus operadores políticos, impotente diante da dissolução do acordo peronista entre setores da esquerda e setores conservadores em torno da figura de seu finado marido, Juan Domingo Perón, Isabelita foi a figura mais bem-acabada do esgotamento do ciclo de acordos, avanços e paralisias que marcou o peronismo. Ao se deixar guiar pelos setores mais conservadores do peronismo, Isabelita parecia uma morta-viva, a encarnação de um tempo que já acabara, mas ninguém sabia como terminar.

Agora, imaginem que estamos na Argentina dos anos 1970 e Perón não morreu. Como um fantasma, ele volta para tentar organizar a oposição contra o governo que ele mesmo elegeu, federando as vozes dos descontentes com o governo criado por ele mesmo e para o qual indicou vários ministros. Não, algo dessa natureza não poderia acontecer na Argentina. Algo assim só pode ocorrer no Brasil. Pois não é isso o que estamos vendo com um Lula reconvertido a arauto da “frente de esquerda” juntamente com o resto do que ainda tem capacidade de formulação no PT? O mesmo PT que, em um dia, vai à televisão para afirmar seu compromisso com a defesa dos direitos trabalhistas para, no dia seguinte (vejam, literalmente no dia seguinte) votar em peso a favor de um pacote de medidas que visam “ajustar” a economia não exatamente taxando lucros bancários exorbitantes, mas diminuindo os mesmos direitos trabalhistas que defendera 24 horas antes.

Nesse contexto, o que pode ser uma frente de esquerda a não ser a última capitulação da esquerda brasileira à sua própria impotência? Ou, antes, o reconhecimento tácito de que a esquerda brasileira só pode oferecer o espetáculo deprimente de discursos esquizofrênicos divididos entre o reino das boas intenções e a dureza das decisões no “mundo real”? Acreditar que aqueles que nos levaram ao impasse serão os mesmos capazes de nos tirar de tal situação é simplesmente demonstrar como a esquerda brasileira vive de fixações em um passado que nunca se realizou, que nunca foi efetivamente presente. É mostrar ao País que a esquerda não tem mais nada a oferecer de realmente novo e diferente do que vimos.

Se a esquerda quiser ter alguma razão de existência (pois é disso que se trata), ela deve começar por fazer uma rejeição clara do modelo que foi aplicado no Brasil na última década, seja no campo político, seja no campo econômico. O modelo lulista não chegou a seu esgotamento por questões exteriores, pressão da mídia ou inabilidades de negociação da senhora Dilma. Ele se esgotou por suas contradições internas e quem o criou não é capaz de criar nada de distinto do que foi feito.

Insistiria ainda em como é falsa a ideia de que a esquerda brasileira está de joelhos sem saber o que fazer. Há anos, vários setores progressistas têm alertado para o impasse que agora vivemos. Há anos, várias pautas foram colocadas em circulação, entre elas a revolução tributária que taxe a renda e libere a taxação sobre o consumo, a democracia direta com poder de deliberação, veto e gestão, o combate à especulação imobiliária através de leis que limitem a propriedade de imóveis, a reforma agrária, a diminuição da jornada de trabalho, a autogestão de fábricas e locais de trabalho, o salário máximo, o casamento igualitário, as leis radicais de defesa da ecologia, o fim da política de encarceramento sistemático, a exposição da vida financeira de todos os que ocupam cargos de primeiro e segundo escalão, a punição exemplar da corrupção, o fim do monopólio da representação política para partidos. Não é a falta de direção que acomete a esquerda brasileira. É a falta de coragem, o que é muito mais grave. 

Leia mais do professor Vladimir Saflate



segunda-feira, 18 de maio de 2015

Corra, Lula, corra


Lula só vingou porque subverteu a ordem das coisas imposta pelo conservadorismo. Mas descuidou de alçar o novo protagonista em sujeito histórico. Haverá tempo?



Um viés da crítica progressista ao ciclo de governo do PT guarda certa identidade com a avaliação conservadora desse período.

Não se diga que as intenções de partida e de chegada são as mesmas.

Mas há o risco de conduzirem ao mesmo afunilamento economicista.

Aquele que leva à inútil tentativa de se buscar um equilíbrio macroeconômico exclusivamente ancorado em variáveis de mercado, origem, justamente, de desequilíbrios hoje só equacionáveis satisfatoriamente com um salto de força e consentimento progressista.

Ao se enveredar por esse caminho – como mostra o governo Dilma — fica difícil escapar ao redil do ajuste neoliberal.

Ardilosamente economicista, ele próprio, sonega à democracia o direito --e a capacidade-- de conduzir a agenda do desenvolvimento para além dos limites, finalidades e interesses estipulados pelos detentores da riqueza.

Sobretudo daquela parcela derivada do capital especulativo, cuja supremacia se impôs a todas as latitudes, a partir da desregulação dos mercados financeiros desde o final dos anos 70.

Tal armadilha desguarnece a capacidade de iniciativa na medida em que se abdica do único trunfo capaz de fazer frente à hegemonia dos mercados: dotar o desenvolvimento de um protagonista social, que o conduza pelos trilhos de uma democracia participativa assim revigorada.

É um pouco a renúncia a isso que espeta no governo hoje a angustiante imagem de um refém em seu labirinto, conduzido para onde não quer ir, sem no entanto ter forças para declinar.

Ao embarcar na busca de uma regeneração da economia nos seus próprios termos, setores progressistas correm o risco de se perder nesse círculo de ferro.

Há quem diga que a danação é inevitável. E passe até a enxergar nela a miragem da virtude.

Um caso antigo de conversão na teoria e na prática, com as consequências sabidas?

Fernando Henrique Cardoso.

Eis alguém que não se pode acusar de incoerência entre a obra teórica e o legado público.

A dependência brasileira em relação aos ditames dos capitais mundiais é inexorável, ‘e o Brasil do PT perdeu seu tempo ao afrontá-la’, pontificava o tucano em artigo retrospectivo, em 2013, por exemplo.

O raciocínio vem de mais longe.

Ao elidir a problematização dos conflitos decorrentes do mutualismo entre o capital local e o internacional --bem como o seu custo social, FHC –o acadêmico autor da ‘Teoria da dependência’, de 1967; e depois o político protagonista de sua própria teoria-- trocaria a concretude da história pelo fatalismo ideológico, cego às contradições transformadoras da sociedade.

A dinâmica política, desse ponto de vista, estaria previamente dada.

Independente da prática, ela orbitaria apenas como um lubrificante de estruturas prevalecentes, sem nunca alterar o núcleo duro da engrenagem.

Com a exacerbação da lógica financeira, a partir da desregulação propiciada pelas derrotas da esquerda mundial nos anos 70/80, o enredo mecanicista ganharia, de fato, a robustez de um sujeito hegemônico.

Mercados autorreguláveis, seus agentes racionais e as agências de risco assumiriam então o rosto genérico de um interlocutor dotado de força, mando e ubiquidade.

Irreversível, sob a ótica conservadora, esse determinismo daria estofo ao projeto político do sociólogo que exerceu a Presidência da República de 1995 a 2002, disposto a personificar a teoria da rendição.

Assim o fez.

Com privatizações estratégicas, com o desmonte do Estado interventor (‘sepultar a Era Vargas’) , com o consequente descompromisso público com as grandes obras de infraestrutura, a renúncia a uma política industrial, a redução do Itamaraty a um anexo do Departamento de Estado norte-americano, a desmoralização do planejamento econômico, a desqualificação dos sindicatos, a derrisão de tudo o que remetesse ao interesse público e, finalmente, o deslumbramento constrangedor de um cosmopolitismo provinciano, festejado no Presidente que falava ‘línguas’ e era bajulado no exterior pelo bom comportamento.

Aquilo que na teoria era só uma constatação histórica, transformar-se-ia na determinação política de fazer da servidão uma virtude.

O surgimento do PT e a vitória desconcertante do líder operário em 2002 e 2006 –que fez a sucessora em 2010 e 2014-- introduziu um ruído insuportável no escopo desse conformismo estratégico com a sorte do país e de sua gente.

Para revalidar a teoria –e os interesses aos quais ela consagrou uma dominância inconteste, seria preciso desqualificar a heresia de forma exemplar.

Ao esgotar a capacidade de resistência do Estado brasileiro, a longa convalescença da crise mundial deu ensejo ao repto demolidor.

Em duas frentes.

A primeira atribui à heresia intervencionista a raiz da corrupção ‘endógena ao PT’.

Magnificada como singularidade incontrastável pela emissão conservadora, ela cumpre o papel de prostrar e acuar a energia progressista.

Deixa o campo livre assim, para se cuidar do que importa.

O que importa, de fato –com a mal disfarçada sofreguidão dos que já acossam o regime de partilha do pre-sal— é desmontar aquilo que o acicate conservador denomina de ‘voluntarismo lulopopulista’.

Do que consta?

Da série de heresias contrapostas à lógica dos mercados, que não apenas ameaçam dilatar limites econômicos, como implodir interditos teórico e ideológicos de uma hegemonia conservadora consagrada a duras penas a partir de 1964.

Esse é o ponto do desmonte em que nos encontramos agora.

E nisso se empenham os labores dos centuriões encarregados de varrer para debaixo do tapete do ‘ajuste’ e da ‘consistência macroeconômico e fiscal’ o estorvo que sujou o mercado e a boa teoria nos últimos 12 anos.

Inclua-se nessa montanha desordenada de entulho:

- 60 milhões de novos consumidores ingressados no mercado, a cobrar cidadania plena;

- 22 milhões de novos empregados formais;

- um salário mínimo 70% maior em poder de compra;

- um sistema de habitação popular ressuscitado;

- bancos públicos a se impor à banca privada;

- uma Petrobras e um BNDES fechando as lacunas da ausência de instrumentos estatais destruídos no ciclo tucano;

- políticas de conteúdo nacional a devolver um impulso industrializante ao desenvolvimento brasileiro;

- o desdobramento de um acróstico –os BRICS-- em instrumentos de contrapeso à hegemonia dos mercados financeiros globais...

Etc.

A faxina requerida é tão virulenta que necessita árduo trabalho de escovão e detergente ideológico para dissolver a resistência indevidamente alojada em estruturas de consumo, serviços e participação instituídas para atender a 1/3 da sociedade.

É nessa hora que um pedaço da crítica progressista ao ciclo de governo do PT pode resvalar para a mesma avaliação conservadora do período.

O risco, repita-se, é subordinar a ação a soluções de mercado para desequilíbrios macroeconômicos que só a luta política pode escrutinar.

O que diz o vulgo conservador ecoando o sociólogo da dependência?

Diz que o ‘voluntarismo lulopopulista’ jogou os pobres nos aeroportos sem ter investido antes em saguões e pistas; entupiu as ruas de carros sem planejar as cidades; lotou shoppings com uma gente diferenciada antes de adestra-la nos bons modos.

Enfim, parte-se do pressuposto de que há um roteiro correto a ser observado na luta pelo desenvolvimento.

Um manual supra histórico.

Aquele guardado nas bibliotecas da USP, sob as asas amplas da boa teoria da dependência.

Primeiro, você investe; longos anos a fio, em parceria com o capital estrangeiro que naturalmente abraçará o mutirão por amor à causa.

Depois chama os pobres; cadastra a massa ignara.

Então, só então, eles serão convidados a ingressar em fila indiana na sociedade capitalista.

Sem tumulto, por favor, você aí, um passinho à frente.

Não é assim que as coisas acontecem no fluxo implacável de contradições na história de uma nação.

Lula foi avançando pela linha de menor resistência, é verdade.

Aproveitou a maré alta das commodities no mercado mundial para remar com os botes e pirogas à praia, onde os iates chegam sempre na frente e desta vez não foi diferente.

Os bancos e a república dos acionistas nunca ganharam tanto como no Brasil do ciclo Lula.

A diferença desta vez é que as canoas também chegaram quase perto da areia.

Causando tumultos conhecidos.

Tivesse ele tentado investir antes no piquenique à beira mar, para chamar o povão depois, seu mandato teria ido para beleléu antes de concluir o segundo ano de governo.

No golpe do impeachment de 2005, quem o defenderia?

O povo iria aguarda-lo pacientemente organizar o afável capitalismo brasileiro para depois vir sentar-se à mesa?

De certa forma é isso que Dilma tenta fazer agora. 

O ministro Joaquim Levy é o que se chama de um empreiteiro desse tipo de obra.

Desses que acreditam honestamente na planilha: você organiza o capitalismo primeiro, dá ao mercado as condições de preço, rentabilidade, garantias, desregulações... depois as coisas se ajustam naturalmente.

Como num PowerPoint.

Desses que os sábios da Casa das Garças preparam para revelar as virtudes da abertura plena da economia, projeto de uma eventual volta do PSDB a Brasília para completar o que começou. 

Um país não cabe em simulações desprovidas de conteúdo histórico.

O ciclo iniciado em 2003 tirou algumas dezenas de milhões de brasileiros da pobreza; deu mobilidade a outros tantos milhões na pirâmide de renda.

Os novos protagonistas formam hoje a maioria da sociedade.

Curto e grosso: Lula criou um novo personagem histórico –mas ainda não um protagonista da própria história.

Sua presença dificulta sobremaneira rodar o software conservador no metabolismo econômico brasileiro.

Ao trazer 60 milhões de novos consumidores para a fila do caixa ele mudou as referências estratégicas da produção, da demanda e da política nacional.

O conservadorismo quer devolver a pasta de dente ao tubo, assepsia que requer um cavalo de pau como poucas vezes se viu na história latino-americana.

Lula esburacou impiedosamente o chão político desse projeto.

Mas o espinho na garganta das elites não deixa de cutucar também a omissão histórica cometida em seus dois governos e agora aprofundada.

É isso que nos devora nesse momento.

Quando esgotou o ciclo de alta das commodities a coerência macroeconômica teria que ser buscada na repactuação do desenvolvimento redesenhado pela organização política das grandes multidões que invadiram a economia e agora cobram a sua maioridade na cidadania.

O passo seguinte teria que ser dado em negociação permanente com elas.

Para que não acontecesse contra elas.

Certos requisitos, porém, não foram preenchidos.

A dúvida é saber se há tempo para providencia-los.

O terreno é mais adverso que nunca e os blindados da crise e do conservadorismo avançam em marcha batida para um enfrentamento de vida ou morte.

Lula, uma parte do PT, forças progressistas e democráticas, movimentos sociais e partidos de esquerda terão o discernimento e a audácia necessários para opor uma frente ampla nesse caminho, antes que seja tarde demais?

Sim, há ajustes a fazer. Todos aqueles em debate e mais alguns que não interessa à emissão conservadora contemplar.

Há duas formas de descascar o abacaxi.

Uma, implica a construção democrática das linhas de passagem negociadas para um novo estirão de crescimento ordenado pela justiça social.

A outra preconiza simplificar a tarefa, terceirizando o timão à ‘racionalidade’ dos livres mercados.

A escolha conservadora dispensa o penoso trabalho de coordenação da economia pelo Estado, ademais de elidir a intrincada mediação dos conflitos inerentes às escolhas do desenvolvimento.

O que o jogral conservador reclama é um arrocho neoliberal da mesma cepa daquele que depauperou o mundo do trabalho na Europa.

Mas de consequências ainda mais devastadoras.

Em uma sociedade na qual não existe a gordura do Estado de Bem Estar Social, será preciso cortar no osso.

A mãe de todas as batalhas gira em torno dessa questão.

A questão do método.

Há pouco tempo para escolhas.

Mas há muito a perder se elas não forem feitas.

Corra, Lula, corra.

Por Saul Leblon na Carta Maior 

sábado, 2 de maio de 2015

Latinoamérica fortalece su unión a través de sindicatos y trabajadores en convocatorias multitudinarias el 1º de Mayo


En un clima de diferencias propias de cada país, pero con el fortalecimiento claro de los sindicatos y sus trabajadores, que prácticamente tienen similares aspiraciones en todo el continente, el 1º de Mayo de 2015, bien podrá ser recordado como un momento de cambios en democracia para el empoderamiento de las clases trabajadoras.





En la región, Argentina vive su 1º de Mayo inmersa en la carrera electoral presidencial, a tal punto que los políticos han convocado a actos proselitistas, más allá de la vigencia de la jornada. El Gobierno y las cúpulas sindicales se encuentran en un momento de tregua después de acordar un “techo” a las paritarias, con la CGT de Moyano y los gremios del Transporte, solidificados en torno al esquema peronista que ha cumplido con la mayoría de los requerimientos básicos. En Brasil la situación es otra: la presidenta no hablará como lo ha hecho en los últimos años por cadena de radio y TV para saludar a los trabajadores –para muchos por temor a un “cacerolazo”- pero si lo hará a través de las redes sociales. Los trabajadores se encuentran enfrentados como nunca antes a Dilma, después que se firmara el decreto que amplía indiscriminadamente la tercerización del trabajo (el PL4330). El tema, sumado a la falta de negociación con las centrales sindicales, augura un día tenso y de fuertes manifestaciones de los trabajadores, en reclamo a sus derechos. En Paraguay, más de 30 movimientos sindicales, marcharán por Asunción, en la primera articulación de trabajadores que reclaman derogar la Ley de Alianza Público Privada, considerada un “saqueo a las riquezas nacionales por empresas foráneas”. Los trabajadores vuelven a las calles también exigiendo volver atrás con la Ley de Defensa que permite la intervención de las Fuerzas Armadas en conflictos internos. En Chile, el anuncio de la presidenta Bachelet, anticipando reformas para la probidad y la transparencia, aparecerán en los discursos previstos por los dirigentes sindicales.La Central Unitaria de Trabajadores, convocará a la defensa de la reforma laboral que devuelva poderes al sindicalismo bajo la consigna: “Reforma Laboral, Más Democracia; Nueva Constitución, Mejor Chile”.
La mayor convocatoria americana: en Cuba

La Plaza de la Revolución de La Habana será escenario del mayor encuentro americano e internacional de sindicalistas con motivo del 1º de Mayo.Delegaciones de 68 países se dan cita para compartir la fecha con los trabajadores socialistas de la isla, en un marco que Cuba ha adelantado será fundamentalmente de apoyo a la Revolución Bolivariana de Venezuela. Según publica el diario oficial Granma, participarán 1867 ciudadanos de 68 países, 28 de ellos naciones latinoamericanas. “Los países que registrarán una mayor presencia son: Estados Unidos (285), Francia (209), Uruguay (127), Chile (121) y Argentina (102)” añade el matutino habanero en referencia al desfile central. Cuba quiere superar el medio millón de participantes de la marcha, lo que se calculó fue la asistencia del año pasado, para lo cual ha convocado especialmente a los estudiantes y los militares, con el horizonte puesto en mantener la unidad, en medio del proceso de acercamiento con Estados Unidos, que podría imponer nuevos conceptos en la vida de la isla. Sin embargo la Central de Trabajadores de Cuba, ha puesto el énfasis más en colaborar con sus pares venezolanos, que en el devenir posible de los acuerdos con Washington. “Respaldar a Venezuela ante las sanciones unilaterales de Estados Unidos” es la consigna, recordando el paquete que le impuso en marzo el Gobierno de Obama al de Maduro, por considerarlo “una amenaza a su seguridad nacional”.
La fecha que Estados Unidos prefiere pasar por alto

El Primero de Mayo, reconocido como Día Internacional de los Trabajadores, será la jornada más importante del año para que millones recuerden a los llamados Mártires de Chicago, cuya lucha llevó a la jornada laboral de ocho horas, y cuyo ejemplo permitió abrir paso a reclamos básicos, muchos de los cuales aún siguen incumplidos por parte de los dueños del capital. Los sindicalistas anarquistas, ejecutados por la Justicia de Estados Unidos, curiosamente son recordados por todos los pueblos del mundo, excepto en su propio país, donde celebran el Labor Day cada 1º de Septiembre como festejo federal. El Congreso Obrero Socialista de la Segunda Internacional, de 1889, consideró la reivindicación y el homenaje a los Mártires de Chicago, como una fecha indiscutible, en base a los acontecimientos que dieron lugar al comienzo de la huelga de 1886, bajo la consigna “Ocho horas para trabajar, ocho para dormir y ocho para la casa”. Hasta ese reclamo, la ley prohibía “trabajar más de 18 horas salvo caso de necesidad”. La historia señala que en 1868, el presidente norteamericano Andrew Johnson promulgó la Ley Ingersoll –que reconocía las 8 horas- pero los empresarios, respaldados por la prensa estadounidense, dieron fuerte lucha para que los trabajadores cumplieran jornadas máximas de 14 y 18 horas. Cuando los movimientos sindicales se fortalecieron, la prensa calificó de “lunáticos poco patriotas” e “indignantes” a los dirigentes que proclamaban debía cumplirse con las leyes. El 1º de Mayo de 1886, casi un cuarto millón de trabajadores comenzaron una huelga, siendo Chicago –la ciudad industrial con peores condiciones laborales del país- el epicentro de las luchas. Al día siguiente en una manifestación la policía mata a seis trabajadores y deja decenas de heridos; de allí en más, la revuelta, la muerte de un policía por una bomba, los 31 acusados del hecho, los 8 condenados, cinco de ellos a la horca, conforman la historia que nadie sintetizó mejor que uno de los condenados. El periodista alemán August Vincent Spies, grita instantes antes de su ahorcamiento: “La voz que vais a sofocar será más poderosa en el futuro que cuantas palabras pudiera yo decir ahora”. Así lo testimonió el héroe cubano José Martí, que presenció la ejecución como corresponsal del diario argentino La Nación.

terça-feira, 14 de abril de 2015

A deriva da classe média na Paulista e o vazio conservador

Quem teria algo a propor para reerguer a autoestima da sociedade brasileira e superar o atoleiro do arrocho fiscal? A direita certamente que não.



A atabalhoada virulência com que o conservadorismo foi ao pote para matar, picar e salgar o quarto mandato progressista conquistado nas urnas brasileiras, começa a revelar a fragilidade inerente ao ímpeto que tem pouco mais a propor ao país do que uma panaceia vingativa: o politicídio do PT.

O esvaziamento das manifestações é o sintoma dessa vossoroca que come o simplismo por dentro.

A frustração de quem foi ludibriado pela promessa de redenção sumária do país pode arrastar cabeças e decepar reputações conservadoras.

Há pouco mais de dois meses, Cristina Kirchner era um cadáver político na Argentina, que tem eleições presidenciais em outubro. A presidenta era acusada inclusive de tramar o assassinato de um juiz. Sem recuar, batendo de frente com a mídia conservadora e não cedendo ao mercadismo, ela virou o jogo.

Hoje Cristina tem 50% de aprovação; seu candidato Daniel Scioli, que lidera a corrida eleitoral, esteve na semana passada no Brasil para gravar o apoio de Lula à sua campanha.

Tucanos de alto coturno, como FHC, farejaram o perigo no ar e recomendam distância das ruas; outros tentam com sofreguidão ressuscitar uma bandeira que morreu na deriva do último domingo: a do impeachment.

A mídia uiva, mas há um cheiro de fracasso na operação ‘tudo ou nada’ desencadeada nos últimos meses.

O governo e o PT saberão, como Cristina, virar o jogo?

Como se sabe, na falta de votos, o conservadorismo convocou a guilhotina.

O medo e o ressentimento da classe média foram insuflados, depois, promovidos a juiz.

O glorioso jornalismo isento deixou a notícia momentaneamente de lado –como tem feito desde 2003-- para vestir o gorro ninja dos vingadores com a tocha na mão. Ou o microfone, o teclado, tanto faz no caso.

Cevada no capim gordura do preconceito e da semi-informação, educada pela emissão conservadora a dar as costas ao país real e aos percalços do desenvolvimento na desordem neoliberal, a classe média respondeu à convocação com a histeria dos programas de auditório.

A corrupção, como sempre, foi o bacalhau atirado para aguçar apetites vorazes.

Não faltaram capatazes desembaraçados no ofício de tanger o surto à seringa do antipetismo.

Na segunda volta da comitiva neste domingo, porém, a marca do ferro quente já não parecia bastante para garantir o alinhamento nos piquetes programados.

Aqui e ali surgem manifestações generalistas que afrontam os cânones diuturnamente emitidos pelos donos do berrante, a saber: a corrupção petista será sempre sistêmica; pontual, por natureza, é a conservadora.

Dissonâncias no script das delações da Lava Jato, ademais de imprevistos como a Operação Zelotes, sem mencionar o trensalão tucano, levantam a poeira da indiferenciação.

Quando o próprio higienismo exala podridão, quem garante a disciplina do tropel?

Um terceiro domingão verde amarelo reveste-se da incógnita típica das criaturas que podem escapar ao criador.

É hora de trocar o bacalhau e o jornalismo dos chacrinhas e chacretes por alguma coisa mais propositiva e rápida.

Qual? Esse é o problema.

Além de condenar a corrupção, elogiar a água encanada e a eletricidade, o que mais o conservadorismo tem a oferecer à encruzilhada do desenvolvimento brasileiro nesse momento?

O direcionamento de tudo no extermínio petista, que descarta até a reforma política, revela-se agora um chão mole, perigosamente capaz de engolir a pressa conservadora.

Sejamos francos, discursos em homenagem ‘à ordem espontânea dos mercados’, como o dos petizes do ultraliberalismo austríaco, que saltitam no alto do carro alegórico desse ‘Brasil Livre’, empolgam alguém, além dos redatores da Veja?

A léguas de ser um remanso para o PT, a verdade é que o mar tampouco se mostra amigável ao repertório conservador.

O aperto de mão entre os presidentes Raul Castro e Barack Obama na Cúpula das Américas, no último sábado, por exemplo, aleijou uma perna decisiva de seu pé de apoio no mundo.

O gesto condensa um simbolismo suficiente para estalar os ossos dessa turma.

Não importa que Washington acene a Cuba com uma mão e aponte a metralhadora para a Venezuela com a outra.

O implícito reconhecimento de que o cerco fracassou em relação à ilha de Fidel –e que ela não se dobrou no essencial-- desmoraliza a repetição da fórmula contra a Venezuela.

Não só.

A subserviência histórica da elite latino-americana aos EUA também não encontra mais amparo na pujança de um way of life que justifique seu projeto de um alinhamento carnal com o império.

O que os EUA tem a oferecer hoje, além do jogral da eficiência dos mercados desregulados, que a crise de 2008 mastigou e arrota na forma de uma indigestão sistêmica que já se arrasta por sete anos?

O que, além da ALCA recauchutada? E cujo principal objetivo é injetar uma transfusão de demanda à combalida recuperação norte-americana, incapaz deslanchar para fora com o dólar forte, e para dentro, com a anemia de uma classe média cuja renda não cresce há 15 anos em termos reais.

Sugestivo dessa minguante é a campanha protagonizada agora pela atriz Gwyneth Paltrow.

Para divulgar a luta contra a fome nos EUA – o país tem 47,5 milhões de pessoas que ganham até 2 dólares por dia – ela topou a experiência de viver uma semana com um máximo de US$ 29.

Organizada pelo Banco de Alimentos de Nova Iorque, o desafio pretende denunciar o duplo corte no vale alimentação imposto pelo Congresso conservador, em 2013, que jogou mais famílias na insegurança alimentar.

Se é assim e se a meca recua agora diante de uma Cuba que estava programada para ruir junto com os irmãos Castro, o que sobra como referência de mundo ao conservadorismo verde e amarelo da Paulista?

Cuba era o coringa no qual se batia para acertar Lula, Dilma, Morales, Chávez/ Maduro, Cristina, Rafael, Mujica e outros.

Se, como disse Raul Castro na cúpula do Panamá, um país pequeno e desprovido de recursos naturais, pode construir uma cobertura universal de educação e saúde gratuita e de alta qualidade, ademais de garantir amplo acesso ao esporte e à cultura, direito à vida e à segurança. ‘Se em que pesem as carências e dificuldades’, agregou Raul Castro, ‘continuamos a compartilhar o que temos, e mantemos 65 mil cooperantes cubanos trabalhando em 89 países, sobretudo nas áreas da medicina e da educação...’

Se com recursos tão escassos, Cuba fez tudo isso, cabe pedir licença a Raul Castro para transferir a sua pergunta aos brasileiros que desejam compartilhar um verdadeiro país: o que não seria possível construir aqui com uma frente ampla progressista capaz de negociar e ordenar o passo seguinte do desenvolvimento?

Raul foi ovacionado ao final de sua fala no encontro do Panamá.

Quem na atual encruzilhada brasileira teria algo desse gigantismo a propor à sociedade para reerguer sua autoestima e superar o atoleiro que oscila entre o arrocho fiscal e a deriva dos domingões conservadores na Paulista?

À prostração petista cabe lembrar: Cuba é pouco maior que Santa Catarina.

Seu mercado limita-se a 11,2 milhões de pessoas. As quatro letras de seu nome condensam, porém, um dicionário de experiências, de esperanças, de vitórias, de tropeços, de lições e de problemas no caminho da construção de uma sociedade mais justa e convergente. 

Os picos de desigualdade no capitalismo, e tudo o que isso significa em relação às formas de viver e de produzir em nosso tempo, reiteram a pertinência dessa teimosia que incomoda o conservadorismo, como ficou provado mais uma vez nas eleições presidenciais de 2014 .

Em um dos debates mais virulentos da campanha, o candidato conservador Aécio Neves trouxe a ilha para o palanque. 

O tucano acusou o governo da candidata à reeleição, Dilma Rousseff, de cometer duas heresias do ponto de vista do cerco histórico à audácia caribenha.

A primeira, o financiamento de US$ 802 milhões para a construção de um porto estratégico de um milhão de conteiners na costa cubana de Mariel, a 200 quilômetros da Flórida. Obra capaz de transformar Cuba em uma intersecção relevante no comércio entre as Américas, denunciada por Aécio como ‘cumplicidade do BNDES com o castrismo’.

A outra, a parceria na área da saúde, que trouxe mais de 11 mil médicos cubanos ao país, onde asseguram assistência a 50 milhões de pessoas. Estigmatizado como um sistema de ‘escravidão de mão de obra cubana’, o ‘Mais Médicos’ teve a oposição canina de muitos que agora defendem o projeto de terceirização e desmonte dos direitos trabalhistas no Brasil...

O reatamento diplomático entre Havana e Washington adiciona ar fresco à impressionante resistência daquilo que se imaginava mais frágil do que tem se mostrado.

É um sinal significativo. Porém é mais que um sinal.

Agrega um punhado de arguições à transição de ciclo econômico em marcha na América Latina e, portanto, no Brasil nesse momento.

A terceirização do futuro como obra do arrocho, por exemplo, é a melhor escolha?

Não se discute a necessidade de ajustes macroeconômicos em meio a uma transição difícil da economia mundial.

Mas é inescapável a atualidade da lição embutida na travessia cubana que afrontou o fatalismo economicista com as armas hoje subestimadas por muitos dentro do governo.

Por maior que tenha sido a rigidez política de que se acusa a experiência cubana – que não se sustentaria se fosse esse o seu único esteio-- o fato é que ela só não virou pó graças ao planejamento público, à organização social, à consciência política e à formação cidadã de amplas camadas de seu povo.

Não se trata de minimizar o custo humano e social elevadíssimo desses sessenta anos de resistência ao cerco imperial. Mas de enxergar na experiência extrema da vulnerabilidade, o alcance mitigador da variável política, cuja força se faz reconhecida agora no reatamento diplomático norte-americano.

O retrospecto da épica caminhada do povo de Cuba fala aos nossos dias e à deriva que nos constrange.

Ao contrário da presunção que vê no degelo diplomático o atalho da conversão capitalista tantas vezes frustrada, a resistência pregressa enseja outras esperanças.

Livre da asfixia econômica, o discernimento político e social acumulado pela sociedade cubana figura talvez como o mais experimentado laboratório de ponta da história para resgatar o elo perdido do debate latino-americano sobre a transição para um modelo de desenvolvimento mais justo, regionalmente integrado, cooperativo, democraticamente participativo e sustentável.

Se Cuba desmentir a derrocada de seus valores, dará inestimável contribuição para fixar o chão firme capaz de desenferrujar essa alavanca histórica.

Não é pouco. E pode ser muito do ponto de vista do imaginário e da agenda regional.

Cuba soçobrou, mas não sucumbiu graças à vitalidade de sua organização política e social para enfrentar restrições equivalentes às de uma guerra, que se estendeu por sessenta anos, a mais longa de que se tem notícia no mundo moderno. 

Não há nisso um elogio à ilusão do paraíso caribenho.

Cuba continua a ser uma construção inconclusa, cujo futuro depende da integração latino-americana em curso.

Mas ao contrário da rendição inapelável prevista nos prognósticos conservadores, pode surpreender de novo. E frustrar seus coveiros, contribuindo para reinventar a transição rumo a uma sociedade mais justa e libertária no século XXI.

Nesse sentido, a ilha ainda tem algo de novo a dizer aos povos latino-americanos. E aos brasileiros, em especial, nesse momento particular.

Na voz de Raul Castro na Cúpula das Américas, a pequena porção de terra caribenha parece sacudir a prostração brasileira pelo ombros para dizer: desenhe um futuro maior que a avenida Paulista e convoque todos os brasileiros a construí-lo.


Por Saul Leblon na Carta Maior