quinta-feira, 15 de maio de 2014

A grande mídia opera na lógica de partido de "novo Tipo"




Esta que presenciei hoje não dá pra não registrar por aqui, a Globo News citou a imprensa estrangeira que disse "que tinha mais de 1 milhão de manifestantes nas ruas no Brasil, em 12 cidades, contra a copa".


Na sequência, o Jornal Nacional diz que "manifestações contra a copa nas 12 cidades brasileiras, tiveram presença de pessoas que oscilaram entre 50 e 300 manifestantes".


Em qual delas dá pra acreditar?
Acho que quem tem capacidade crítica, deve ver esta pergunta por outra ordem:
Os grandes veículos de comunicação viraram os verdadeiros partidos de oposição no nosso país. E como a democracia pra eles, tem um valor meramente pragmático, tanto faz eles substituírem as oposições, como desmoralizarem a politica e os governos, estes valores não lhes são estratégicos. Por isto muitos deles apoiaram a ditadura.

Hoje trabalham sistematicamente para deslegitimar a política e as funções públicas de Estado. Organizam a pauta e o discurso direitista neoliberal, promovem soluções tecnicistas frente aos problemas sociais, de costas para o povão. Além de buscar permanentemente a desmoralização dos governos que não rezam por suas cartilhas.

De outro lado, estes são os mesmos que relativizam cotidiamente, as condutas corruptas entre seus aliados e amplificam qualquer deslizes de seus adversários políticos.
Também adoram promover "novas lideranças", para com isso iludir alguns, que estes são os únicos que podem redimir a política.

Para esta midia, qualquer um serve na luta contra seus adversários, mas quando suaa lideranças sucumbem no próximo escândalo, perdem seu pseudo rigor e buscam omitir o que realmente acontece.

Para finalizar, não sejamos ingênuos, tudo isto é para colocar mais desesperança nos partidos e na política e para que os grupos de controle de opinião possam destruir a crença nas funções públicas de Estado e substituí-las pela lógica de seus interesses particulares por dentro da estrutura pública.

Postagem extraída do Facebook do deputado Adão Villaverde do PT-RS

A Porto Alegre das maquetes que jamais existiu (1)





A prefeitura da capital produziu uma série de vídeos divulgados em 2010, no marco do aniversário de 232 anos de Porto Alegre, projetando a cidade do futuro que teriamos hoje, para sediar a Copa do Mundo de Futebol.


De acordo com as promessas amparadas em maquetes e imagens coloridas, já usadas nas eleições de 2012, a nossa cidade seria uma maravilhosa metrópole agora, em 2014, com lindos portais de entrada, ciclovias de verdade, velozes BrTs,um cais portuário revigorado, um espaço urbano super iluminado e moradores deslocados de lugares de origem reassentados dignamente como cidadãos.


O primeiro vídeo que divulgamos e que está no yotube mostra o engodo da revitalização do cais do porto.

A eleição de 2014 no Brasil e o reposicionamento geopolítico dos EUA

Os Estados Unidos estão deixando o Iraque e o Afeganistão em segundo plano e se preparando para enquadrar a China e também os BRICs.



Pela primeira vez na história da democracia brasileira temos um governo de centro-esquerda tão longo, construído a partir do centro político e conduzido pelo PT. Agora, o desafio do PT e do governo Dilma é, ao mesmo tempo, manter esse centro político e construir uma nova agenda social para a classe trabalhadora do país. A avaliação é do economista Marcio Pochmann, ex-presidente do IPEA e atual presidente da Fundação Perseu Abramo, que participou de um debate segunda-feira à noite, no Hotel Everest, promovido pelo mandato do deputado federal Pepe Vargas (PT/RS).

Pochmann fez um balanço sobre o período de doze anos dos governos Lula e Dilma, falou sobre os desafios que estão colocados para a continuidade desse projeto nos próximos anos e analisou o cenário internacional no qual se dará essa disputa, em especial no que diz respeito às relações entre Brasil e Estados Unidos.

Para contextualizar a natureza desses desafios, Marcio Pochmann situou a posição do Brasil hoje no mundo. “O Brasil não é um país do centro dinâmico capitalista. Não temos uma moeda forte internacionalmente, não temos uma produção tecnológica de peso, a nossa participação em patentes é muito débil e também não temos forças armadas de grande peso”. Ou seja, apesar de o protagonismo internacional do país ter aumentado significativamente nos últimos anos, o Brasil segue sendo um país da periferia capitalista e é neste contexto que os desafios para o futuro devem ser pensados.

O economista atribuiu o sucesso do projeto atualmente no comando do país ao grande grau de mobilização e enraizamento social do PT e à fragmentação da classe dominante provocada pelas políticas neoliberais. Esse quadro, assinalou Pochmann, permitiu que o PT chegasse ao governo federal com uma maioria política muito fragmentada e tendo que lidar com uma série de contradições geradas pelo neoliberalismo. Isso aconteceu também em virtude de uma nova relação adotada com o centro político. “Nós aprendemos com movimentos políticos anteriores, como o de João Goulart, que tentaram fazer reformas no Brasil, mas foram interrompidos pelas classes dominantes. Essas tentativas nos tornaram mais cuidadosos quanto às fragilidades da democracia no Brasil. A estrutura do nosso Judiciário é praticamente a mesma do tempo da ditadura. O Legislativo hoje, em todas as suas esferas, dá golpes no poder Executivo, caso esse afronte os interesses dominantes”.

Esse aprendizado com derrotas anteriores e a decisão de incorporar o centro político tiveram como uma de suas contrapartidas, assinalou ainda Pochmann, a necessidade de fazer uma série de concessões. “Temos uma democracia com problemas, com uma representação extremamente desigual. Um exemplo disso é o peso dos proprietários de terra no Congresso. Apesar desses limites e problemas, o PT está há 12 anos no governo federal e procurou fazer uma polarização mais avançada, mas sempre preservando o centro”. Para Pochmann, as três principais conquistas desse período foram as seguintes:

1. Reposicionamento do Brasil no mundo. O Brasil é hoje uma referência internacional. O país inventou outra diplomacia que, entre outras coisas, perdoou a dívida de países mais pobres e estabeleceu acordos de cooperação técnica. Nós mudamos o padrão de nossas relações comerciais, fortalecendo o eixo Sul-Sul. Nossas Forças Armadas estão firmando parcerias, como ocorreu agora com a Suécia no caso da compra dos caças, que envolvem transferência de tecnologia. Em parceria com França e Argentina, estamos construindo submarinos nucleares. Na licitação do campo de Libra, firmamos relações com chineses e franceses. Tudo isso expressa uma mudança significativa na política de inserção internacional do Brasil.

2. Construção de uma nova estratificação social. O salário mínimo aumentou mais de 70% em termos reais. Houve uma expansão do trabalho com a criação de 22 milhões de novos empregos, 90% deles com a carteira assinada. A média salarial do país, embora ainda seja baixa, chegou a dois salários mínimos, o que significou uma expressiva mudança na inserção social e econômica de milhões de pessoas.

3. Reinvenção do mercado. Hoje temos de 10 a 12 políticas públicas voltadas para pequenos empreendimentos, cerca de 4 milhões de microempreendedores individuais, que têm acesso a políticas de compras públicas e de microcrédito.

O reposicionamento dos EUA no cenário mundial

Ao contextualiza o cenário internacional no qual se dará a disputa eleitoral este ano Brasil, Pochmann destacou como tema central o reposicionamento dos Estados Unidos. “Desde 2008, os Estados Unidos estão com um problema sério e olham para a China cada vez com mais atenção. Os EUA estão deixando o Iraque e o Afeganistão em segundo plano e se preparando para enquadrar a China e também os BRICs. Além disso, estão enfrentando a crise energética apostando no xisto e ganharam em competitividade com a redução do custo de sua mão-de-obra nacional. Hoje, os EUA querem se livrar do Iraque e do Afeganistão e se concentrar na China”.

Neste cenário, acrescentou Pochmann, a eleição de 2014 no Brasil é chave para os Estados Unidos. Não é pouca coisa que está em jogo no futuro político do país. “O ataque que a Petrobras vem sofrendo não é só eleitoral, mas tem também um elemento de disputa comercial dramático. O Brasil precisa ter grandes empresas, públicas e privadas, para assumir uma posição menos periférica em um mundo onde as grandes corporações econômicas são responsáveis por dois terços dos investimentos em novas tecnologias. Além isso, precisa também construir um grande bloco de investimentos, como tivemos com Getúlio e JK, com capacidade de coordenar o investimento privado no país”.


Tarefas para o futuro


O economista apontou, por fim, algumas tarefas que o PT e seus aliados têm no próximo período para garantir a continuidade e o avanço do atual projeto. Entre elas, destacou:

Construção de uma nova agenda para a classe trabalhadora: temos um grande crescimento de trabalhadores no setor de serviços, de trabalho imaterial. Cerca de 22 milhões de pessoas entraram no mercado de trabalho e que não foram para os sindicatos. Nós temos um outro tipo de trabalho hoje, com grande expansão do trabalho imaterial, onde as pessoas estão conectadas 24 horas por dia. Não sei se as instituições que temos hoje são portadoras de uma agenda para o futuro. Tivemos cerca de 40 milhões de pessoas que ascenderam socialmente. Esse é um segmento em disputa.

Revolução na Educação: por que o filho do pobre tem que entrar no mercado de trabalho antes de terminar a universidade? O país precisa desenvolver um sistema de educação contínua, uma educação para a vida toda. Todas as grandes empresas brasileiras têm hoje uma universidade corporativa. Elas têm a consciência de que é preciso aprender e capacitar durante toda a vida. As pessoas estão vivendo mais e trabalhando até mais tarde. Cerca de um terço dos aposentados e pensionistas estão trabalhando.

Jornada de Trabalho: é preciso uma CLT de novo tipo para os trabalhadores do setor imaterial (serviços). Cada vez mais as pessoas estão trabalhando muito em casa e estão trabalhando mais. Nada disso está regulamentado.




Por Marco Aurélio Weissheimer, na Carta Maior

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Aprofundar a democracia, jamais retroceder




Às avessas do sentimento de repúdio da chamada descomemoração do golpe cívico militar de 1964 no Brasil, temos, sim, bons motivos para festejos neste mês de abril, mais precisamente no dia 25, aniversário de 40 anos da Revolução dos Cravos, em solo português.

O acontecimento que enterrou a ditadura salazarista de 41 anos em 1974 e ficou conhecido pela consigna da vitória das flores sobre tanques e fuzis, marcou também e especialmente o início de um processo de redemocratização que se espalhou por outros países sufocados pelo arbítrio e as práticas da censura, da tortura e da morte dos oponentes. A exemplo do que foi a rebelião cubana nos anos 60, embalando movimentos revolucionários inspirados no ícone nascente do Che Guevara, a revolta dos oficiais lusos
de baixa patente instigou mobilizações pela redemocratização, no mundo, na década seguinte.

Aqui, no Brasil, naquele ano tivemos a pioneira eleição sob o governo militar que sofreu a primeira grande fissura na urnas com a vitória do partido oposicionista MDB sobre a situacionista sigla Arena, no bipartidarismo torto imposto à nação, antecipando a propugna pela anistia obtida em 1979 e o fim oficial do regime em 1985.
A resistência e o enfrentamento à ditadura em nosso país, tanto por democratas e progressistas quanto por setores da esquerda, serviram de combustível para também acalentar os sonhos de toda uma geração de jovens militantes estudantis na época, dentre os quais nos encontrávamos. A revolução de 25 de abril de 1974 reforça a ideia de que aquele movimento não só teve o sentido de libertar seu povo, mas representou e segue representando um marco fundamental na história de Portugal e na trajetória
no mundo contemporâneo. A derrubada da ditadura salazarista teve um símbolo que se destacou pelo pendor pacífico sem precedentes, no qual os militares preferiram dialogar ao invés de usar as armas.

O nome Revolução dos Cravos remete à luta em que não foi dado um único tiro e os canos dos fuzis carregavam cravos vermelhos, distribuí-dos aos rebeldes pela população que festejava alegremente o fim da ditadura pelas ruas de Lisboa e outras cidades do país. Este movimento quase épico de libertação do povo português, eivado de razão e racionalidade, não deixou de imprimir sequelas de emoção e lucidez no dorso fosforescente e conformista de nossa época.

Que as mesmas esperanças e expectativas descortinadas com aquele movimento que ajudaram a reforçar a luta contra o regime de arbítrio também em nosso país possam servir de reflexão e motivação para que jamais se esqueça do horror e para nunca mais aconteçam barbáries similares em qualquer lugar do mundo.

Artigo de Adão Villaverde, engenheiro, professor e deputado estadual do PT-RS

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Lula não precisa ser candidato

A Folha reteve por 24 horas o dado capaz de relativizar esmagadoramente a queda de seis pontos nas intenções de votos na presidenta Dilma.



Por que o Datafolha não inclui em suas enquetes algumas perguntas destinadas a decifrar o modelo de desenvolvimento intrínseco à aspiração mudancista majoritária na sociedade brasileira, segundo o próprio Instituo?

Por que o Datafolha não pergunta claramente a esse clamor se ele inclui em seu escopo de mudanças um retorno às prioridades e políticas vigentes quando o país era governado pelo PSDB, com a agenda que o dispositivo midiático tenta restaurar com o lubrificante do alarmismo noticioso?

Não se trata de introduzir proselitismo nos questionários de sondagem. É mais transparente do que parece. E de pertinência jornalística tão óbvia que até espanta que ainda não tenha sido feito.

Por exemplo, por que o Datafolha não promove uma simulação que incluiria Fernando Henrique Cardoso e Lula como candidatos teóricos e assim avalia as preferências entre os modelos e ênfases de desenvolvimento que eles historicamente encarnam?

Por que o Datafolha não pergunta claramente ao leitor se prefere a Petrobras --e o pré-sal, que é disso que se trata, sejamos honestos-- em mãos brasileiras ou fatiada e privatizada?

Por que o Datafolha não investiga quais políticas e decisões estão associadas à preferência pelo petista que há 12 anos está sob bombardeio ininterrupto da mídia e, ainda assim, conserva 52% das intenções de voto num país seviciado pelo monopólio midiático?

Por que o jornal que é dono da pesquisa –em mais de um sentido-- não explicita em suas análises as relações (ostensivas) entre a resistência heroica do recall desfrutado por Lula; o desejo majoritário de mudança na sociedade e o vexaminoso arrastar dos pés-de-chumbo do conservadorismo, Aécio e Campos?

Por que a Folha reteve por 24 horas o dado capaz de relativizar esmagadoramente o impacto da queda de seis pontos que teria marcado as intenções de votos na presidenta Dilma –mas que ainda assim vence com folga (38%) seus dois principais oponentes juntos (26% de Aécio e Campos)?

O dado em questão não é singelo.

Só divulgado nesta noite de domingo –sem espaço na manchete e sequer registro na primeira página do diário dos Frias!-- ele tem caibre para dissolver em partículas quânticas tudo o que foi dito no final de semana sobre a derrocada do governo na eleição para 2014.

Qual seja, a opinião de Lula -- colheu o Datafolha-- é uma referência positiva de impacto avassalador sobre as urnas de outubro: seu peso ordena e hierarquiza a definição de voto de nada menos que 60% do eleitorado brasileiro.

Seis em cada dez eleitores tem em Lula uma baliza do que farão na cabine eleitoral.

Segundo o Datafolha, 37% deles votariam com certeza em um candidato indicado pelo petista; e 23% talvez referendassem essa mesma indicação.

Note-se que os estragos que isso deixa pelo caminho não são triviais e de registro adiável.

Se divulgados junto com a pesquisa das intenções de voto, esmagariam, repita-se, o esforço do tipo ‘vamos lá, pessoal’, que os comodoros do conservadorismo tentaram injetar na esquadra de velas esfarrapadas de Campos e Neves.

Vejamos: ao contrário do que acontece com o cabo eleitoral de Dilma, 41% dos eleitores rejeitariam esfericamente um nome apoiado por Marina Silva –Eduardo Campos encontra-se nessa alça de mira contagiosa, ou não?

Já a rejeição a um candidato apoiado por FC é de magníficos 57%.

Colosso. Sim, quase 2/3 do eleitorado, proporção só três pontos inferior à influência exercida por Lula, foge como o diabo da cruz da benção dada pelo ex-presidente tucano a um candidato; apenas 23% cogitariam sufragar um nome apoiado por ele.

Esse, o empolgante futuro reservado ao presidenciável Aécio Neves, ou será que a partir de agora ele imitará seus antecessores de dificuldades e esconderá o personagem que o imaginário brasileiro identifica ao saldo deixado pelo PSDB na economia e na política do país?

O fato é que a virada anti-petista, ou anti-governista, ou ainda anti-dilmista que o dispositivo midiático tenta vender –e o fez com notável sofreguidão neste final de semana, guarda constrangedoramente pouca aderência com a realidade.

Exceto se tomarmos por realidade as redações da emissão conservadora, a zona sul do Rio ou o perímetro compreendido entre os bairros de Higienópolis, Morumbi e Vila Olímpia, em São Paulo, a disputa é uma pouco mais difícil.

Não significa edulcorar os desafios e gargalos reais enfrentados pelo país.

Mas na esmagadora superfície habitada por 60% da população brasileira o jogo pesado da eleição de 2014 envolve outras referências que não apenas a crispação do noticiário anti-petista em torno desses problemas.

Por certo envolve entender quem é quem e o que propõe cada projeto em disputa na dura transição de ciclo econômico em curso – e nessa luta ideológica pela conquista e o esclarecimento de corações e mentes, o governo Dilma e o PT estão em débito com a sociedade.

Sobretudo, o que os dados mais recentes indicam é que a verdadeira disputa de projetos precisa de mais luz e mais desassombro por parte dos alvos midiáticos.

Os institutos de pesquisas, a exemplo do Datafolha, em grande medida avaliam o alcance do seu eco quase solitário.

Bombardeia-se a Petrobras para em seguida mensurar o estrago que os obuses causaram na resistência adversária. Idem, com o tomate, a standard & Poor’s, etc., etc., etc.

Ao largo das manchete do Brasil aos cacos, porém, seis em cada dez brasileiros aguardam o que tem a dizer aqueles que se tornaram uma referencia confiável pelo que fizeram para a construção da democracia social nos últimos anos.

É aí que Lula entra. E o PT deve cuidar para que entre não apenas rememorando o passado, do qual já é uma síntese histórica.

Mas que coloque essa credibilidade a serviço de uma indispensável repactuação política do futuro, contra o roteiro conservador do caos que lubrifica a rendição ao mercadismo.

Dizer que Dilma perdeu seis pontos e retardar a divulgação do que fariam 60% dos eleitores diante de um apelo de Lula, é uma evidência do temor que essa agenda e esse cabo eleitoral causam no palanque de patas moles que a mídia, sofregamente, carrega nas costas.

Editorial da Carta Maior, por Saul Leblon

segunda-feira, 24 de março de 2014

Um apavorante susto

Militares histéricos nos caçavam. Lutamos capoeristicamente: mudávamos até a linguagem das peças. Até que nos pegaram;
por José Celso Martinez Corrêa





Foi um susto!

Do dia 31 de março ao dia 1º de abril, começamos a ser Caçados.

Caçadores Fardados alardeavam pelas Mídias – rádios, tevês, jornais:

– CAÇA AOS COMUNISTAS! CAÇA AOS SUBVERSIVOS!


Senti, 
sentimos, 
um apavorante susto!

Este mesmo susto senti eu quando vi,

em pleno Carnaval de 2014,

um soldado da PM de máscara e corpo inteiro,

não pro carnaval de Dionísios, mas pra COPA!

A PM fantasiada de ROBOCOP!!!!!!

O Poder do Estado pretendendo proibir o uso de máscaras nas manifestações,

ao mesmo tempo em que apresentam a ROBOCOPA a nós, desmascarados, desarmados ?!

É uma DECLARAÇÃO DE GUERRA?

Cassados os direitos humanos de manifestação,

estamos diante de ROBÔS que poderão até nos matar.

Como nós, corpos sujeitos da vida e da história, seres livres vivos, vamos contracenar com esta estranha entidade – pessoa tanque de guerra de ficção científica?

Nos anos 50, início dos 60, o Teat(r)o Oficina e eu tivemos a felicidade de viver e crescer nos afirmando como animais indomáveis de Teat(r)o, contracenando com uma multidão botando fé nas reformas de base, plugadas nos artistas criadores da Bossa Nova, do Cinema Novo, da Radio Nacional, os Concretistas – Nova Figuração, Sambistas, Estudantes Estudiosos.

SUICIDIO LIBERTADOR

Eu estava no Colégio Estadual de Araraquara, em uma aula nem me lembro de quê, quando de repente as pessoas corriam entre salas de aula clamando os Evoés de Trágédia, que depois vim a saber que eram como as do Teatro Grego:

– GETÚLIO SE SUICIDOU!

Professores, alunos, bedéis, todos atingidos, saímos pra rua sem nos olharmos, misturando-nos ao que ouvíamos nas rádios transmitindo multidões aos berros, ocupando a Avenida Rio Branco da Capital do Brasil, o Rio de Janeiro, no mesmo frêmito de energia feroz que nos "pegou". Vivíamos em plena Era do Rádio, evoezávamos com o Brasil inteiro:

– O PAI DOS POBRES SE MATOU E TE DEIXOU UMA “CARTA TESTAMENTO”

Me lembro que ouvi dentro do meu “em mim”:

– TE VIRA MEU FILHO QUE TEU PAI SE SUICIDOU.


A Engrenagem de Sartre que montamos já demonstrava: Presidente da República, Pai, Deus, não podem nada diante da máquina do Imperialismo.

– TE VIRA dentro da Vida Impressa em Dollar!

Sai d’Ela: TEU PAI SE MATOU!

Eu entendi e acho que muita gente de minha geração sacou, não adiantava esperar nada do poder de cima, era necessária uma revolução.

E passei a contar comigo como uma espécie humana vinda dos deuses minerais, vegetais e animais; com a minha geração e com aquele povo tragicômico orgyástico do enterro de Getúlio. Choravam a morte do Paternalismo, que no Brasil nunca deu em nada.

O suicídio de Getúlio e sua Carta travaram o Golpe Patriarcal Financeirista engatilhado pelo Pentágono e pelos Militares Golpistas territorializando o Brasil como Potência de um lado da Guerra Fria.

O Poder nascido nesta época para os povos dos países hoje chamados emergentes, e naquele tempo 3º Mundo, vinha da não tomada de posição diante de um dos dois Blocos, mas sim do jogo ao lado da Paz no Mundo.

Eu tinha 17 anos e pude gozar até o dia do meu aniversário de 27, 30 de março de 1964, a liberdade criadora que permitiu a existência do Teat(r)o Oficina no sucesso absoluto de Os Pequenos Burgueses de Maximo Gorki.

Essa peça virou do avesso os jovens pequenos burgueses e até os burgueses ditos progressistas. Todos suicidas de classe média com tesão do renascimento do corpo revolucionário, diferentemente de hoje em que todos querem ser – a pequena Burguesia escrava da Alta, que esta grande atriz Valeska Popozuda encena no seu clipe do Beijinho no Ombro:

– DESEJO A TODAS INIMIGA VIDA LONGA PRA QUE ELAS VEJA CADA DIA MAIS NOSSA VITÓRIA.

Fomos comemorar os meus 27 anos num show de Nara Leão e seu joelho, suportando tesudo a curva de seu violão, numa boite da Praça Roosevelt com muitos artistas, sentei numa mesa com o Augusto Boal.

Foram 10 anos em que a cultura brasileira, os movimentos de massa pelas Reformas de Base, Movimento Estudantil através da UNE, Reforma Agrária, o Maravilhoso Movimento contra o “Acordo MEC USAID” – que venceu a partir de 64 e transformou a Universidade num Forno pra produzir $oldados pro Mercado Militarizado.

Darcy Ribeiro, o Político Antropólogo Antropófago que tomou ayuasca com os índios, estava criando uma Universidade já Antropófaga, em que até eu iria dar Cursos de Teat(r)o.

Nesse decênio, a não ser com a besta do Jânio, as Portas de Brazília eram abertas sem cercas burocráticas ou/e seguranças. É incrível imaginar isso hoje: Brasília não era ainda BrazILHA.

Jango Goulart, Juscelino, Celso Furtado, Francisco Juliano, a beleza da 1ª Dama Maria Tereza Goulart, de Marta Rocha.

O GOLPE DA GUERRA FRIA NO BRASIL

Mas na manhã seguinte, dia 31, Dona Maria, uma cozinheira épica do apê onde morava no Bixiga, entrou com um exemplar da ÚLTIMA HORA xingando:

– SEU ZÉ! O POVO TA FODIDO! OS MILITAR QUEREM ACABAR COM O SALÁRIO MÍNIMO!!!

Assim mesmo fui ao ensaio marcado de Pena que ela seja uma Puta, de John Ford, não o dos filmes de cowboy, mas um dramaturgo recém-pós Shakespeare: escatológico, pornô, maravilhosamente colorido, onde dirigiria Célia Helena, Raul Cortez, Jô Soares, Claudio Marzo, Miriam Mehler, Renato Borghi, Tereza Austragésilo, Eugenio Kusnet, Moema Brun, Lineu Dias, Ronaldo Daniel – depois Ron Daniels, Geraldo Del Rey, numa montagem que talvez antecipasse O Rei da Vela, trabalhada no prazer do Teatro a mais radical Teatralidade – com muita cor. Tínhamos dinheiro da ótima bilheteria de Os Pequenos Burgueses, todos enchafurdados no prazer da criação desabusada em fase de 1ªs leituras em torno de uma mesa enorme.

Escancara as portas do Oficina Lilian Lemmertz, mensageira da tragédia:

– CONGESTIONAMENTO DE TANQUES DE GUERRA NAS RUAS.

INVADIRAM O TBC, QUEREM FECHAR TODOS OS TEATROS.

Saímos todos pra Consolação no Teatro de Arena perto da Faculdade de Filosofia da Maria Antônia. A Pitonisa estava certa: engarrafamento no trânsito, não de carros, mas dos Tanques e Canhões apontados pra todos os lados.

Encontramos muita gente da “classe teatral” e combinamos uma reunião depois dos espetáculos na Casa de Maria Alice Vergueiro.

Tínhamos uma sessão de Pequenos Burgueses.

O Oficina, que lotava todas as noites, estava totalmente vazio, umas 15 pessoas.

Os atores foram até o fim da peça incorporando o que se passava naquela noite – quem estava nesta sessão teve o privilégio de viver este momento com intensidade maior – com as mãos tremulas, não sei como foi, mas o Hino da Internacional Comunista que fechava a peça foi substituído por uma música russa, talvez até ortodoxa, pois tínhamos ganho através do Kusnet muitos discos do Consulado da URSS.

Na reunião da Classe, com a tevê ligada, vi aparecer n’Ela meu professor de Direito Internacional Gama e Silva, um cadáver, ressuscitando como o democrata do Golpe que iria ocupar o Ministério da Justiça.

Os Mortos saíam dos Túmulos.

A Decisão de todos era escapar, não se deixar capturar pela ordem de caça aos subversivos e aos comunistas.

Senti literalmente o chão fugir aos meus pés.

O Ato Estratégico Trágico de Manifestação do Poder Humano, de TeAto Político, atuado pelo ator presidente Getúlio Vargas, com o texto de sua Carta Testamento e seu SuiCídio, levantou o TRANSE DOS COROS DAS MULTIDÕES DE TODO BRASIL que abortaram o Golpe Militar pró Guerra Fria, preparado para Agosto de 1954.

Em 64 já estávamos espertos – eu tinha 27 anos.

Foram os dias de “CAÇA AOS COMUNISTAS! AOS SUBVERSIVOS!”.

Militares histéricos nos caçavam tomando o lado do Pentágono na Guerra Fria.

Fomos driblando a Ditadura e a Censura, lutando capoeristicamente, mudando sempre nossas estratégias e linguagem para as peças, até que, depois de várias tentativas, nos pegaram em 1974 –10 anos de Golpe!

O Teat(r)o Oficina foi invadido, muitos fomos presos. Fui torturado juntamente com o ator fotógrafo Celso Lucas e exilado para Portugal, descolonizando-se com suas ex-colônias.

Na Anistia retornei ao Brasil e ao Teat(r)o Oficina. Um período subterrâneo vivido durante a “depressurization” = abertura gradual lenta e restrita, para  começar a emergir totalmente com a inauguração do Terreiro Eletrônico do Teat(r)o Oficina, Obra de Arte de Lina Bardi e Edson Elito com o “HAM-LET” –Impeachment de Collor no dia 3 de outubro de 1993.

Hoje, juntamente com a PM – Polícia Militar – a disfarçada de ditadura explícita, apoiada no Vodu Metafísica da Fatalidade da Especulação Financeira, instaurou-se no aparelho do Estado, plugado no Agro Negócio de Alimentação com sabor de inseticida, a tentativa de extermínio dos Índios, da Natureza, do Cultivo da Vida, quer dizer, da Cultura. É a Tentativa de Domínio de Uma Verdade ÚNICA, de preferência a que mais pode gerar preconceitos, cegar mais a visão, violentar a contracenação com o Outro, a que traz o desprezo pelo Teatro que é uma Arte do Poder Xamânico Humano ligado ao Cultivo da Vida, a que sintomatiza o que acontece no Ato de Teato Mundi e Muda.

A Cultura é desprezada porque Muda, e é muda de outra maneira de estar e ser no mundo.

As Máscaras da Homofobia, Racismo, Machismo, Consumismo, Dinheirismo não resistem diante do PHODER HUMANO do ser que encara a vida desassombradamente.

RETORNANDO AO GOLPE

Foi uma surpresa inesperada pra todos. Celia Helena tinha uma casa em Ubatuba onde sumiríamos. Entramos no apartamento de Geraldo Del Rey, Renato Borghi raspou a barba de Piotr que fazia em Pequenos Burgueses e fomos pra Praia enquanto Ítala Nandi pintava os cabelos de Louro e passava a gerir o Oficina com a montagem de Toda Donzela tem um Pai que é uma Fera, de Gláucio Gil. Convidou Benedito Corsi para dirigir Tarcísio Meira como galã, Miriam Meheler, Ítala e Eugênio Kusnet no Elenco. A peça foi dando a grana que precisávamos – menos os do Oficina e muito mais os do Arena – para ir ao Exterior para não sermos caçados.

O Golpe caçava primeiro os que estavam no Poder, os jovens do CPC que militavam nas favelas, na UNE - União Nacional dos Estudantes – Incendiada, os do Movimento de Cultura Popular, que explodiu em Pernambuco ao mesmo tempo das Ligas Camponesas, onde a repressão foi de arrastar pelas ruas o Corpo Nu Vivo de Gregório Bezerra, líder comunista puxado por uma corda.

Quando Cleyde Iaconis foi presa no TBC pairava uma interdição aos Teatros em que os sucessos eram os das peças ditas subversivas.

Na peça que vamos montar, Cacilda 64 – o Golpe, Maria della Costa e Cacilda Becker têm uma sacação estratégica de Grandes Atrizes da Política, que é a Arte do Teatro em si.

O DOPS intimou a classe Teatral paulista a Depor.

A Operação chamava-se Sindicância Para Apurar a Infiltração Comunista no Meio Teatral.

Ambas pedem que fossemos todos muito bem vestidos em fantasias de bons moços e moças, como num Cortejo. Cacilda veste um Dior, Maria os Modelos das Casas Vogue, de Denner ou de outros tops da época. Combinam tudo por telefone: alugam dois Rolls Royce, chamam toda a Mídia e descem com seus sapatinhos forrados de suas carruagens sob todas as luzes da Tupy, dos flashes de todos os jornais e revistas.

Penetráramos no PARDIEIRO DO DOPS onde nos esperava o Delegado Dr. BuonCristiniano e a televisão transmite tudo ao vivo.

Cacilda e Maria della Costa respondem ao interrogatório com uma clareza e cara de pau que deixou constrangido o Delegado diante das tevês.

Cacilda libertou não somente Cleyde Iáconis, que estava presa, como outros Atores e Atrizes e terminou por conseguir do Buon Cristiniano, que todos os teatros fossem abertos:

– ESTAMOS AQUI ESPONTANEAMENTE DESAUTORIZANDO O CARÁTER COERCITIVO DA INTIMAÇÃO … NÃO CORTEM AS AZAS DO TEATRO BRASILEIRO QUE ESTÁ EM SEU PLENO ESPLENDOR.

Não deviam se meter, mas se meteram através de grupos paramilitares que queimaram a TV-Bandeirantes, o Teat(r)o Oficina, ameaçavam jogar bombas nas Assembleias dos Teatro em que se Lutava contra a Ditadura e sobretudo a Censura.

Em 68 estes milicianos paramilitares Atacaram a Roda Viva no Teatro Galpão na Operação Quadrado Morto, em que assistiram, por quase um mês inteiro, ou mais, a peça pra aplicar sua invasão baderneira terrorista na saída do público destruindo como vândalos os equipamentos do teatro e batendo nos atores e atrizes.

Depois foi o próprio 3º Exercito Nacional de Porto Alegre que atacou pela segunda vez o Roda Viva no Hotel onde estava o elenco, exatamente como aconteceu agora num Hotel da Rua Augusta com a PM e os manifestantes.

Neste massacre não permitiram os advogados de se aproximar dos atores feridos. Foram todos colocados dentro de um Ônibus de volta pra SamPã, sem tratamento para os feridos. Chegaram com as feridas ainda sangrando nas portas do Teatro de Ruth Escobar.

A Peça então foi proibida em todo Território Nacional pelo próprio Exército.

Até o AI-5, de uma certa maneira o Teat(r)o Oficina foi poupado. Encenamos Galileu Galilei, de Brecht, no dia 13 de dezembro, onde ouvíamos pelo rádio o Pronunciamento do Ato Institucional nº 5, pelo qual os militares engrossaram de Vez.

Tínhamos uma Censura para a qual enviávamos os textos e depois fazíamos ensaios gerais para os Censores. Mas sempre liberavam nossas peças porque não entendiam nada. Nós tínhamos desde O Rei da Vela & Roda Viva saído dos critérios da Censura que estava ainda na fase de proibir textos que criticassem diretamente o Governo ou os ligados ao Realismo Socialista.

No ensaio de Roda Viva nenhum censor olhou para o palco. Todos hipnotizados pelos olhos realmente lindos de Chico Buarque de Holanda, que tinha a presença tímida de um deus jovenzinho pra lá do atraente – um santo!

E agora?

O Carnaval de 2014 rolou sem Violência Explícita Militar?

Parece que sim.

Estamos a menos de 100 dias da COPA e próximos à eleição – Ano difícil. Começar tudo de Novo – o Teat(r)o Oficina e seu entorno pra variar a perigo mas não para encenar na Vigília dos dias 31 de março e 1º de Abril

Cacilda 64 – O Golpe.

Nem começamos a ensaiar


MERDA

*José Celso Martinez Corrêa é o diretor do Teatro Oficina. Este texto faz parte da série de artigos do especial Ecos da Ditadura, que lembra os 50 anos do golpe cívico-militar

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