quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Quando o conservadorismo e o preconceito se mostram



Hoje li no jornal Zero Hora um artigo publicado por uma professora em que ela absurdamente questiona o direito ao voto de pessoas com baixa renda ou que estejam atendidos por algum programa social do governo, tipo o Bolsa Família, entre outros.

A professora vai além, diz que: “O indivíduo deve provar que pelo menos está tentando, insistentemente, conseguir uma atividade que lhe permita sustentar a família como milhões de brasileiros fazem a “duras penas”, e aí, sim, ter direito a votar democraticamente, no candidato de sua preferência, porque quer um Brasil melhor, para si e para os seus filhos, e não apenas votar, para não arriscar perder a vida inútil e sem obrigações que tão facilmente conseguiu”.

A professora quer negar o direito do voto ao pobre, o próximo passo será cassar o direito ao voto das mulheres, negros, índios, comunidade LGBT e daí por diante. Neste artigo ela faz a opção da volta ao “voto censitário” da época do império, e o faz de forma natural, ela realmente acredita nisso. Vomita publicamente todo seu preconceito de classe, etnia e qualquer valor republicano de iguais direitos.

Será que a professora lembra-se disso?

A primeira Constituição brasileira, outorgada por dom Pedro 1º. Em 1824, definiu as primeiras normas de nosso sistema eleitoral. Ela criou a Assembleia Geral, o órgão máximo do Poder Legislativo, composto por duas casas: o Senado e a Câmara dos Deputados - a serem eleitos pelos súditos do Império.

O voto era obrigatório, porém censitário: só tinham “capacidade eleitoral” os homens com mais de 25 anos de idade e uma renda anual determinada. Estavam excluídos da vida política nacional quem estivesse abaixo da idade limite, as mulheres, os assalariados em geral, os soldados, os índios e - evidentemente - os escravos.

Ninguém pense que a República modificou rapidamente esse quadro. Na primeira eleição de forma direta para presidente da República, em 1894, Prudente de Morais chegou ao poder com cerca de 270 mil votos que representavam apenas 2% da população brasileira da época.

A ampliação do direito de voto a um número cada vez maior de brasileiros aconteceu ao longo do século 20. O voto feminino, por exemplo, data de 1932 e foi exercido pela primeira vez em 1935.

Em mais um trecho do seu “artigo” a professora insiste na diferenciação do voto entre pobres e ricos. 

Diz ela: “Um cidadão só é cidadão de verdade se cumpre com seus direitos e deveres. O assistencialismo instalado no Brasil permite que milhões que não cumprem e nem se interessam pelos seus deveres votem, com o mesmo peso de outros tantos milhões que, além de verem cada vez mais encolhidos seus direitos, precisam cada vez mais trabalhar e produzir para cumprir seus deveres de cidadão e sustentar, não só a sua família, mas alguns milhões de outras famílias que ele nem conhece e que tampouco se interessam se é ele, também, que através de seus impostos ajuda a “pagar essa conta”.

O triste é ver pessoas se manifestando publicamente na defesa do retrocesso, defendendo a barbárie social e ainda mais degradante é ver uma professora fazê-lo. Quando deveríamos justamente defender a ampliação dos direitos e avançar nas conquistas, eis que surgem vozes deste tipo. 

Aliás, manifestação esta que não é solteira, basta ver o sentimento fascista de alguns que brotou de forma absurda neste processo eleitoral que passamos recentemente, aonde a insanidade e o desconhecimento chegou pedir a volta da ditadura militar. 

Devemos ser vigilantes e combater vigorosamente este tipo de pensamento excludente, preconceituoso e protofascista. 



Leiam aqui o artigo da "professora" na íntegra.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Passará


Estava ouvindo uma canção que dialoga com isso agora a pouco.

Gostei  e vou interpretar isso de meu modo. My Way;

Dizem que canções não se escrevem, elas nascem como cada dia em torno de nós, que elas existem para você da mesma forma que existe para mim, basta simplesmente colhe-las.

Se for verdade, não sei.

Os poetas dizem que as canções são ciganas, que nos roubam a poesia e nos vendem pílulas de felicidade, como os amores que temos ao longo da vida e que se vão.

Dizem que estes amores são como doença da própria existência para nos causarem dores. Como angústias de uma pobre riqueza, e quiçá sejam salvas pelo solo de um violão.

Apenas acho que a vida mata determinadas ilusões com a velocidade que elas passam por nós são,  via de regra, atropelos pra além dos bordoneio de cordas de violão. A estupidez encurrala o romantismo, o pragmatismo impera e os valores desmoronam como juras não cumpridas.

Mas ao final a dor que existe em mim nestas considerações, existirá em você.
E nos fará sentir como marinheiros em poder do vento e da saudade.

Ao cantar uma canção que não sabes como faz como escrever,  ou como cantá-la, mas aquela pequena dor, que seja ódio, ou que seja amor.......
Passará


Se não passar o “filosofar” sempre valerá a pena. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Lacerda na atualidade, a imprensa e o golpe




Lendo os grandes portais de notícias, jornais impressos, telejornais, revistas e até mesmo ouvindo rádio, é impossível não se lembrar de Carlos Lacerda, da UDN e dos golpistas orquestrados pela mídia da época e em particular no jornal “Tribuna da Imprensa” (sic) e do sentimento plantado por eles contra o “Getulismo” daquela época e a similaridade do que ocorre diuturnamente na mídia de hoje contra Dilma, Lula e, via de regra,  do anti-petismo implementado a partir dos grandes monopólios de comunicação no Brasil.

Quero me deter nos anos de 1950 e a partir dele. Neste período, o jornalista e político Carlos Lacerda assumiria nacionalmente o papel de um dos principais opositores (se não o maior) a Getúlio Vargas e seus herdeiros políticos.

É importante contextualizar esta história “Lacerdista”, durante a longa e polêmica discussão sobre a exploração e refino do petróleo no Brasil já no governo Dutra, Lacerda foi demitido do jornal Correio da Manhã em maio de 1949 em função a vários artigos agressivos contra Grupo Soares Sampaio, cuja família era amiga íntima de Paulo Bittencourt, proprietário do jornal. Em 27 de dezembro, no mesmo ano, nasce o Jornal Tribuna da Imprensa graças a uma grande mobilização de políticos udenistas, católicos conservadores como Gustavo Corção e de grupos empresariais vinculados ao capital externo ante o nacionalismo que começava a tomar conta de setores do Exército e da própria burguesia industrial, e que conseguiria paralisar a tramitação de um projeto governamental que garantiria participação de investimentos estrangeiros na exploração do petróleo.

Quando da aproximação do pleito presidencial de 1950, havia uma grande movimentação dentro (e fora) da UDN contra a candidatura do então Senador Getulio Vargas. Ataques virulentos viriam, quotidianamente, do jornalista Carlos Lacerda; este se torna - dentro da UDN e fora dela - a encarnação militante do antigetulismo, nada poupando a figura de Getúlio Vargas, a quem se referia em termos bem distantes da tradicional elegância dos bacharéis udenistas: "Esse traidor profissional aí está (...) morrerá algum dia de morte convulsa e tenebrosa. Pois ninguém como ele para morrer de morte indigna, da morte de mãos aduncas em busca do Poder, ó pobre milionário de Poder, ó insigne tratante, ó embusteiro renitente! Ele louva e lisonjeia um povo que, de todo o seu ser, ele despreza. Ele não tem com o povo senão a mesma relação que teve com esse mesmo povo a tuberculose, a febre amarela, a sífilis. É uma doença social, o getulismo". (Tribuna da lmprensa, 12/8/1950).


Através do jornal Lacerda atacava Vargas com ameaças de uma Guerra Civil iminente caso este fosse reeleito, nada diferente do que a mídia monopolista faz com Dilma todos os dias em seus veículos, sejam eles escritos, televisados ou radiofônicos. É imperativo lembrar-se da célebre frase, eternizada pelo Lacerdismo;  “O Sr. Getúlio Vargas senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.

Quando observo que o cenário é similar quanto ao comportamento da imprensa, observem que também na época o petróleo estava no centro da discussão  e o capital estrangeiro aliado aos conservadores e entreguistas  já faziam a disputa pela Petrobras.


Portanto, não pode haver ingenuidade ao se ler manchetes  e verticalizações destas,  de norte a sul, e achar que são apenas “coincidências” da mídia nacional. São pautas concertadas. Não são coincidências, Temos know-how sobre golpes, direita, conservadores, fascistas e conhecemos a escola da mídia na ditadura. Sejamos, portanto, vigilantes. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O mal-estar com o Brasil


O mal estar progressista acumula as dores do parto de uma nação várias vezes abortada na história. E mais uma vez agora na UTI, esmagada pelo cerco conservador.



Não se confunda esse sentimento com a histeria de uma elite incomodada com a ascensão dos pobres no mercado e na cidadania. Esta se resolve  em um resort em Miami.

O mal estar progressista acumula as dores do parto de uma nação inúmeras vezes abortada na história. E mais uma vez agora na UTI, esmagada pelo cerco conservador, respirando por aparelhos.

A construção  inconclusa de que falava Celso Furtado  enfrenta um de seus  capítulos mais angustiante nas horas que correm.

A prostração é a pior sequela.

Mãos que deveriam se unir em caminhada resoluta ruminam a solidão da espera e da dúvida, apartadas entre si e da esperança.

O conservadorismo atordoa o discernimento da sociedade com uma articulação vertiginosa de iniciativas.

Habilidosamente elas misturam o bem-vindo combate à ingerência do dinheiro organizado na vida democrática, ao lado da explícita  tentativa de se demonizar o polo progressista com o selo da política corrompida.

O desfecho cobiçado é impeachment de Dilma ou o sangramento irreversível de seu governo, e das forças que o apoiam, até o sepultamento histórico em 2018.

O que se pergunta ansiosamente é se  Lula já conversou sobre isso com Boulos, do MTST; se Boulos já conversou com Luciana Genro; se Luciana Genro já conversou com a CUT ; se a CUT já conversou com Stédile; se todos  já se deram conta de que passa da hora de uma conversa limada de sectarismos e protelações, mas encharcada das providencias que a urgência revela quando se pensa grande.

Se ainda não se aperceberam da contagem regressiva que ameaça o nascimento de um Brasil emancipado e progressista poderão ser avisados de forma desastrosa quando o tique taque se esgotar.

O mal estar progressista reflete outras perguntas que parecem desconectadas desta maior, mas que estão umbilicalmente associadas à falha na construção de uma hegemonia de esquerda que catalisasse as energias e as esperanças da sociedade em direção a um futuro compartilhado.

 ‘Quero saber quais as matérias de humanísticas existem no curso de medicina’, argui, por exemplo,  a promotora de Direitos Humanos e Inclusão Social do Ministério Público de SP,  Paula de Figueiredo Silva.

 A promotora está estarrecida com relatos feitos por alunas da USP, vítimas de abusos sexuais.

 Ela conduz um inquérito civil para   apurar denúncias de três  estupros em festas dentro de uma das  escolas  de medicina mais conceituadas do  país,  ademais de registro de preconceito racial e agressão a um casal homoafetivo que tentou participar de um dos eventos promovidos pelos estudantes nos últimos anos.

O que parece um mal-estar específico da promotora Paula de Figueiredo remete a um sentimento mais amplo quando emoldurado por episódios recentes envolvendo médicos, estudantes de medicina e entidades representativas do setor.

A 10 dias do segundo turno das eleições deste ano, e após um debate no SBT, a presidenta  Dilma teve uma queda de pressão e  interrompeu uma entrevista ao vivo.

O gaúcho Milton Pires disparou em sua página no Facebook o seguinte comentário:
"Tá se sentindo mal? A pressão baixou? Chama um médico cubano, sua grande filha da puta!”.

Pires é médico. Especialista em terapia intensiva.

No dia seguinte, a Associação Médica Brasileira (AMB) manifestou-se; não para se solidarizar com  Dilma, e sim para conclamar a classe médica a eleger Aécio Neves.

Dez dias antes, após a vitória petista no primeiro turno (5/10), o site ‘Dignidade Médica ‘, frequentado por um grupo de quase 100 mil  internautas que se identificam como médicos ou estudantes de medicina, postou dezenas de críticas à escolha das urnas.

Em uma dela, uma médica defendia 'castrações químicas'.

Outra, um ‘holocausto’.

Contra nordestinos que votaram em Dilma.

Pouco mais de um ano antes, em agosto de 2013, o médico cubano Juan Delgado, um negro a de 40 anos, foi submetido a  um coral de natureza ética equivalente  ao desembarcar  no Brasil.

Ao lado de outros profissionais de Cuba, Delgado   chegara para trabalhar no programa Mais Médicos.

Um corredor polonês   formado  por médicos e estudantes brasileiros de medicina, assediou o recém-chegado de forma agressiva no saguão do aeroporto de Fortaleza.

 ‘Escravo, escravo, escravo!’, reverberava em uníssono o funil de peles alvas e jalecos brancos.

A hospitalidade correu o mundo.

O mal-estar progressista pressentiu algo letal nas vísceras da nação, mas talvez tenha subestimado a extensão da ameaça ao nascimento de um Brasil mais próspero e justo.

Era mais que isso, mas o episódio foi interpretado como a rejeição corporativa  a um programa emergencial criado para mitigar a carência de atendimento em  municípios e periferias, onde profissionais brasileiros não querem trabalhar.

Por exemplo, nas aldeias indígenas das etnias Ka’apoo e Awá, no Maranhão.
Endereço: município de Zé Doca,  300 quilômetros de São Luís,  acessível por estrada de terra.

É lá que o doutor Juan Delgado vive e atende hoje.

Outros 14. 400 profissionais do programa fazem o mesmo  em 3.785 municípios, adicionando mais 50 milhões de brasileiros pobres à cobertura do SUS.

A receptividade a esse mutirão foi  avaliada recentemente.

Pesquisa divulgada no final de outubro, realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais   ouviu 4 mil usuários do  Mais Médicos em 200 cidades do país.

Cerca de 95% dos entrevistados declararam-se muito satisfeitos ou satisfeitos com uma iniciativa condenada por amplos segmentos da classe médica brasileira.

Notas  de 8 a 10 foram dadas ao programa por 87% dos entrevistados.

Mas, sobretudo, os usuários elogiaram o comportamento mais atencioso dos médicos.

Mais interessados em ouvir e habituados a dialogar revelaram-se mais competentes em diagnosticar e tratar.

Médicos cubanos representam 80% do alvo desse elogio.

 Por quê?  Porque apenas 1.846 brasileiros se inscreveram no programa.

Se dependesse da adesão local, 45 milhões de cidadãos continuariam apartados da assistência no país.

O mal estar progressista subestimou a clivagem embutida nessa matemática.

Não se trata de demonizar a classe médica brasileira.

Uma sociedade não é feita de anjos e demônios, mas de seres de carne, osso e circunstâncias.

São as circunstâncias que levam a estabelecer conexões entre a subestimação progressista com o que se passa na sociedade e as frequentes demonstrações de que algo dissociado da sorte do país e do destino de sua gente predomina em segmentos referenciais.

O médico e os estudantes de medicina são apenas a ilustração desse fenômeno.

O exemplo do cardiologista Adib Jatene, falecido na semana passada, é a resposta para quem enxerga nesse sentimento a expressão de um ponto de vista marcado pelo reducionismo partidário.

Jatene era um conservador.

Serviu aos governos Maluf, Collor e Fernando Henrique Cardoso.

Mas tinha um compromisso tão elevado com a medicina  que se tornou referência suprapartidária no debate das políticas públicas na área.

Ele foi o responsável pela criação da CPMF  durante o governo do PSDB.

Tornou-se um dos mais ardorosos defensores da sua   recriação quando o ‘imposto do cheque’ foi extinto pela coalizão demotucana, em dezembro de 2006.

Cerca de R$ 40 bilhões por ano foram subtraídos assim do atendimento à fila do SUS.

Um ano depois, de dedo em riste, a voz alterada, ele ainda  interpelava  Paulo Skaf, então presidente da Fiesp,  um dos animadores da campanha que uniu PSDB, Demos e outros contra a CPMF:

 ‘No dia em que a riqueza e a herança forem taxadas, nós concordamos com o fim da CPMF. Enquanto vocês não toparem, não concordamos. Os ricos não pagam imposto e por isso o Brasil é tão desigual. Têm que pagar! Os ricos têm que pagar para distribuir renda. A CPMF não dá para sonegar! (por isso vocês são contra)". (Folha; Monica Bergamo; 13/11/2007).

A ira santa de Jatene em defesa da saúde pública contrasta com a rigidez  dos que combateram e combatem arduamente políticas como o Mais Médicos, o Bolsa Família, o ganho no poder de compra do salário mínimo, entre outras.

As diferenças não são técnicas, mas tampouco apenas partidárias, como fica claro.

São mais profundas e espraiadas.

A menos de um mês de uma vitória histórica nas urnas, tudo se passa como se o 26 de outubro fosse um ponto de referência longínquo em um calendário desbotado .

O mal estar progressista, distinto daquele que espairece no portão de embarque para Miami,   só tem cura se associado a uma mudança profunda nas instituições que esclerosaram enquanto se avançava em conquistas sociais e econômicas. E agora ameaçam reverte-las ferozmente.

Para colher frutos duradouros da faxina na corrupção, o passo seguinte não poderá se restringir a mudanças   nas regras de financiamento de campanha.

Elas são necessárias, mas insuficientes para combater o mal-estar que aqui se discute.

Dilma poderá colocar quem ela quiser na Fazenda e no Banco Central.

Mas se não cuidar de certas tarefas santas, dificilmente reverterá um estado de espírito que ameaça reduzir o seu segundo governo a um melancólico intermezzo da restauração neoliberal, com requintes de regressão política e social intuídos nos dias que correm.

O que se passou na Itália após o ‘Mãos Limpas’, nos anos 90, não é uma miragem; é uma possibilidade real em uma sociedade desprovida de representação política forte e organização social mobilzada (leia ‘Mãos Limpas; e depois, Berlusconi?’; nesta pág).

Lá como aqui o lubrificante do retrocesso histórico foi a prostração progressista;  a incapacidade de se reaglutinar a esquerda e os democratas em torno de um repto histórico de esperança para a sociedade.

Regular a mídia; eliminar a hegemonia do dinheiro organizado na política; abrir canais de diálogo consequentes e permanentes com os movimentos sociais; salvar o pré- sal e a Petrobras; atrair a juventude pobre e a da classe média para a tarefa de reformar a escola e a universidade, com o olho na formação do discernimento crítico do país e não apenas no mercado.

Se fizer isso, Dilma não levará a sociedade brasileira ao paraíso.

Mas terá dado os passos necessárias para afastar a película de mal-estar e rendição que hoje ameaça matar de inanição a esperança em um Brasil melhor.

Por onde começar?

Respondendo à pergunta ansiosamente repetida no ambiente progressista.

O que se quer saber é se Lula já conversou com Boulos, do MTST; se Boulos já conversou com Luciana Genro; se Luciana Genro já conversou com a CUT ; se a CUT já conversou com Stédile; se todos  já se deram conta de que passa da hora de uma conversa limada de sectarismos e protelações, mas encharcada das providencias que a urgência revela quando se pensa grande.

Se ainda não se aperceberam da contagem regressiva que , mais uma vez, ameaça abortar o nascimento de um Brasil emancipado e progressista, bem...
Serão avisados de forma desastrosa quando o alarme soar.


por: Saul Leblon na Carta Maior 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

SOBRE O FASCISMO NAS ELEIÇÕES 2014



Tenho insistido aqui sobre o "fascismo" que brotou na discussão política, nas redes, nos bares e no decorrer desta eleição e devo algumas considerações sobre isso. Vou falar de maneira genérica sobre, entretanto, sugiro uma reflexão breve sobre o tema e quem tiver tempo que pesquise do que se trata.

Ocorre que o "fascismo" aqui ventilado (eleitoral) é o "fascismo coxinha", uma imitação do que ocorreu na Europa no início do século XX. Aqui suas manifestações foram grotescas e pífias, visto que o "fascismo" aqui careceria de um partido de vanguarda que representasse e unisse os avacalhadores num movimento nacionalista. Mas, ao contrário disso, eles não defendem o país, são relez entreguistas e sem projeto nacional ou de futuro.

Falta intelectualidade e articulação para os fascistas tupiniquins. O totalitarismo que pretendem nem eles compreendem. São incapazes de formular ou de copiar fielmente o movimento europeu daquela época.

Os fascistas brasileiros têm apenas resquícios de militarismo, imperialismo, etnocentrismo, preconceito. Falta-lhes o conceito por burros, por limitações, a única identificação é que são de extrema direita.
O fascismo brasuca é permeado pela mídia quando alardeia a "terceira via", a “alternativa” sempre em voga em períodos eleitorais. Falta-lhes liderança, partido forte e conhecimento.

Os sintomas "fascistas" são fáceis de diagnosticar. Vemos isso nas atitudes cotidianas de pessoas bem próximas. Apenas elas não percebem isso.
Estes sintomas são de toda ordem, infectado em cada opinião, cada gesto ou atitude. São fascistas no DNA, encapsulados pela falta de inteligência.

Fique atento quando ouvir posições sobre "protecionismo, nacionalismo, privatizações, intervencionismo, qualquer preconceito e 3ª posição". Isso é Fascismo
Dito isso, esclareço porque repeti tanto a expressão "fascismo" durante a campanha. São identificações que merecem vigilância e devem ser combatidas, com vigor e energia.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Por que votar em Dilma?




O povo brasileiro escolherá em 26 de outubro entre dois caminhos.

As duas candidaturas compartilham três compromissos fundamentais, além do compromisso maior com a democracia: estabilidade macroeconômica, inclusão social e combate à corrupção. Diferem na maneira de entender os fins e os meios. Diz-se que a candidatura Aécio privilegia estabilidade macroeconômica sobre inclusão social e que a candidatura Dilma faz o inverso. Esta leitura trivializa a diferença.

Duas circunstâncias definem o quadro em que se dá o embate. A primeira circunstância é o esgotamento do modelo de crescimento econômico no país. Este modelo está baseado em dois pilares: a ampliação de acesso aos bens de consumo em massa e a produção e exportação de bens agropecuários e minerais, pouco transformados. Os dois pilares estão ligados: a popularização do consumo foi facilitada pela apreciação cambial, por sua vez possibilitada pela alta no preço daqueles bens. Tomo por dado que o Brasil não pode mais avançar deste jeito.

A segunda circunstância é a exigência, por milhões que alcançaram padrões mais altos de consumo, de serviços públicos necessários a uma vida decente e fecunda. Quantidade não basta; exige-se qualidade.

As duas circunstâncias estão ligadas reciprocamente. Sem crescimento econômico, fica difícil prover serviços públicos de qualidade. Sem capacitar as pessoas, por meio do acesso a bens públicos, fica difícil organizar novo padrão de crescimento.

O país tem de escolher entre duas maneiras de reagir. Descrevo-as sumariamente interpretando as mensagens abafadas pelos ruídos da campanha. Ficará claro onde está o interesse das maiorias. O contraste que traço é complicado demais para servir de arma eleitoral. Não importa: a democracia ensina o cidadão a perceber quem está do lado de quem.

1. Crescimento econômico. Realismo fiscal e manutenção do sacrifício consequente são pontos compartilhados pelas duas propostas. Aécio: Ganhar a confiança dos investidores nacionais e estrangeiros. Restringir subsídios. Encolher o Estado. Só trará o crescimento de volta quando houver nova onda de dinheiro fácil no mundo. Dilma: Induzir queda dos juros e do câmbio, contra os interesses dos financistas e rentistas, sem, contudo, render-se ao populismo cambial. Usar o investimento público para abrir caminho ao investimento privado em época de desconfiança e endividamento. Apostar mais no efeito do investimento sobre a demanda do que no efeito da demanda sobre o investimento.

Construir canais para canalizar a poupança de longo prazo ao investimento de longo prazo. Fortalecer o poder estratégico do Estado para ampliar o acesso das pequenas e médias empresas às práticas, às tecnologias e aos conhecimentos avançados. Dar primazia aos interesses da produção e do trabalho. Se há parte do Brasil onde este compromisso deve calar fundo, é São Paulo.

2. Capital e trabalho. Aécio: Flexibilizar as relações de trabalho para tornar mais fácil demitir e contratar. Dilma: Criar regime jurídico para proteger a maioria precarizada, cada vez mais em situações de trabalho temporário ou terceirizado. Imprensado entre economias de trabalho barato e economias de produtividade alta, o Brasil precisa sair por escalada de produtividade. Não prosperará como uma China com menos gente.

3. Serviços públicos. Aécio: Focar o investimento em serviços públicos nos mais pobres e obrigar a classe média, em nome da justiça e da eficiência, a arcar com parte do que ela custa ao Estado. Dilma: Insistir na universalidade dos serviços, sobretudo de educação e saúde, e fazer com que os trabalhadores e a classe média se juntem na defesa deles. Na saúde, fazer do SUS uma rede de especialistas e de especialidades, não apenas de serviço básico. E impedir que a minoria que está nos planos seja subsidiada pela maioria que está no SUS. Na segurança, unir as polícias entre si e com as comunidades. Crime desaba com presença policial e organização comunitária. A partir daí, encontrar maneiras para engajar a população, junto do Estado, na qualificação dos serviços de saúde, educação e segurança.

4. Educação. Aécio: Adotar práticas empresariais para melhorar, pouco a pouco, o desempenho das escolas, medido pelas provas internacionais, com o objetivo de formar força de trabalho mais capaz.Dilma: A onda da universalização do ensino terá de ser seguida pela onda da qualificação. Acesso e qualidade só valem juntos. Prática empresarial, porém, tem horizonte curto e não resolve. Os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia indicam o caminho: substituir decoreba por ensino analítico. E juntar o ensino geral ao ensino profissionalizante em vez de separá-los. Construir, do fundamental ao superior, escolas de referência. A partir delas, trabalhar com Estados e municípios para mudar a maneira de aprender e ensinar.

5. Política regional. Aécio: Política para região atrasada é resquício do nacional-desenvolvimentismo. Tudo o que se pode fazer é conceder incentivos às regiões atrasadas. Dilma: Política regional é onde a nova estratégia nacional de desenvolvimento toca o chão. Não é para compensar o atraso; é para construir vanguardas. Projeto de empreendedorismo emergente para o Nordeste e de desenvolvimento sustentável para a Amazônia representam experimentos com o futuro nacional.

6. Política exterior. Aécio: Conduzir política exterior de resultados, quer dizer, de vantagem comerciais. E evitar brigar com quem manda. Dilma: Unir a América do Sul. Lutar para tornar a ordem mundial de segurança e de comércio mais hospitaleira às alternativas de desenvolvimento nacional. E, num movimento em sentido contrário, entender-nos com os EUA, inclusive porque temos interesse comum em nos resguardar contra o poderio crescente da China. Política exterior é ramo da política, não do comércio. Poder conta mais do que dinheiro.

7. Forças Armadas. Aécio: O Brasil não precisa armar-se porque não tem inimigos. Só precisa deixar os militares contentes e calmos. Dilma: O Brasil tem de armar-se para abrir seu caminho e poder dizer não. Não queremos viver em mundo onde os beligerantes estão armados e os meigos indefesos.

8. O público e o privado. Aécio: Independência do Banco Central e das agências reguladoras assegura previsibilidade aos investidores e despolitiza a política econômica. Dilma: A maneira de desprivatizar o Estado não é colocar o poder em mãos de tecnocratas que frequentam os grandes negócios. É construir carreiras de Estado para substituir a maior parte dos cargos de indicação política. E recusar-se a alienar aos comissários do capital o poder democrático para decidir.

Aécio propõe seguir o figurino que os países ricos do Atlântico Norte nos recomendam, porém nunca seguiram. Nenhum grande país se construiu seguindo cartilha semelhante. Certamente não os EUA, o país com que mais nos parecemos. Ainda bem que o candidato tem estilo conciliador para abrandar a aspereza da operação.

Dilma terá, para honrar sua mensagem e cumprir sua tarefa, de renovar sua equipe e sua prática, rompendo a camisa de força do presidencialismo de coalizão. E o Brasil terá de aprender a reorganizar instituições em vez de apenas redirecionar dinheiro. Ainda bem que a candidata tem espírito de luta, para poder aceitar pouco e enfrentar muito.

Estão em jogo nossa magia, nosso sonho e nossa tragédia. Nossa magia é a vitalidade assombrosa e anárquica do país. Nosso sonho é ver a vitalidade casada com a doçura. Nossa tragédia é a negação de instrumentos e oportunidades a milhões de compatriotas, condenados a viver vidas pequenas e humilhantes. Que em 26 de outubro o povo brasileiro, inconformado com nossa tragédia e fiel a nosso sonho, escolha o rumo audacioso da rebeldia nacional e afirme a grandeza do Brasil.