sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O maior problema de Livramento


Semana passada, dois estudantes de Santana do Livramento, curso de Gestão Pública, Unipampa, escreveram num trabalho a seguinte frase: “Livramento não é um conjunto de problemas, mas um conjunto de possibilidades”. Concordo. Gostei da frase-resumo.
Depois, fiquei pensando: “O maior problema de Livramento é o desânimo que domina o coração e a mente dos que há muito deixaram de acreditar em sua cidade”.

Culpa disso? A culpa é do ET. O ET de Livramento é o falecido frigorífico Armour. O ET-Armour chegou dos céus, pousou na cidade, chupou vacas e ovelhas e, depois, foi embora. Ainda hoje há santanenses olhando para o céu, esperando que alguma outra empresa-ET venha para a cidade. Enquanto um ET não chega, apenas reclamam. Empurram a vida com a barriga.

Minha esperança é outra. Não acredito em ETs. Acredito na criatividade e coragem dos santanenses que acreditam na vida, que trabalham em seus pequenos e médios negócios. E há muitos. Acredito nos estudantes santanenses e de outras cidades que estão aqui na Unipampa com os olhos cheios de esperança, homens e mulheres, jornalistas, políticos empenhados em várias áreas, cidadãos ativos de várias profissões e os que se dedicam integralmente aos estudos.

O maior problema de Livramento, repito, é o desânimo alimentado por alguns como se fosse gado de invernar.

Há muitos jovens de todo o Brasil vindo morar em Livramento. Sofrem um verdadeiro martírio para conseguirem alugar um apartamento. Pedem fiador, garantias. Meu Deus, parece que há santanenses que não consideram a vinda de jovens para estudar em sua cidade como uma possibilidade, mas como um problema! Em Livramento, há várias casas abandonadas, com herdeiros que nem sabem o que seja trabalhar, que somente esperam pela morte de seus familiares para dividirem a herança.

Ora, mas por que não transformam suas casas em locais para acolherem os jovens que aqui chegam para estudar? E com preços de aluguel que sejam coerentes com a boa imagem que nós gaúchos ainda temos de sermos acolhedores. Jovens que aqui chegam para estudar não deveriam ser explorados por gaúchos desalmados, mas acolhidos por gente que abre suas casas para alugar quartos a preços humanos, civilizados.

A matemática das casas é estranha: há muitas casas vazias, muitos estudantes procurando quartos para alugar, e pouca gente investindo em acolhida humana e financeiramente viável. As imobiliárias fazem a parte delas, como podem. E os proprietários de imóveis? Muitas mães, brasileiras como você, que trazem seus filhos para estudarem aqui, ficariam gratas se as pessoas de bem desta cidade acolhessem (a pagamento) tais jovens para residirem em suas casas. Além do quarto teriam uma senhora que os ajudasse a superar as saudades de casa.

Escolhi viver em Livramento faz mais de um ano. Gosto da cidade. Tenho muitos amigos, gente daqui. Gente que trabalha com a esperança numa mão e a criatividade na outra. Mas há, também, a turma dos desmaiados. Gente que espera um parente morrer para ganhar um dinheirinho, em vez de lutar com criatividade por uma cidade melhor.

Em Livramento, há cidadania ativa, mas há, também, cidadania morta, ou desmaiada, zumbis que se arrastam pela cidade esparramando o pus da indiferença.

“Livramento não é um conjunto de problemas, mas um conjunto de possibilidades”. Os dois estudantes têm razão.

Que ninguém se iluda: não vai chegar nenhum ET salvador em Livramento! A maior riqueza da cidade já está aqui. É a inteligência criativa dos cidadãos ativos desta magnífica gaúcha, fronteiriça, para sempre gloriosa, Sant’Ana do Livramento, cidade muito maior e muito mais bonita e rica do que seus eventuais pequenos problemas passageiros.

Surrupiado do blog do Fabio Régio ,doutor em sociologia e professor da Unipampa

3 comentários:

  1. Parabéns pelo texto. É assim que acontece. Livramento ainda procura outro ET.

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  2. Vanusa D. Silveira5 de dezembro de 2010 17:00

    Ótima leitura acerca da situação de nossa amada cidade! Parabéns...

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